para alix
reviro minhas gavetas, meus livros, os dicionários
ouço de novo meus discos preferidos,
os filmes que me formaram e as flores perfumadas dos meus dias
nada encontro, então pego o lápis e começo a desenhar
o contorno do teu pescoço
mas a ponta não tem a espessura certa
é como se te rasgasse a pele
te tirasse o calor
e o rossor
é preciso outra folha, outro lápis, outro idioma
busco a palavra do contorno dos teus olhos
que pintas com um lápis, pro meu terror
e desvias o olhar para a página
que não consigo te descrever
desisto e desenho o contorno da minha mão
no contorno do teu pescoço e ali me perco
recomeço
sussurro melodias que nunca ouvi
e enuncio versos que nunca li
nem mesmo pra ti
te busco na palavra e aí está o meu erro
te busco no som, no desenho e aí está o meu erro
vou até a esquina como se fumasse
e ouço o tactac dos teus saltos na calçada vazia
nem o balançar da árvore me tira da cabeça
que preciso encontrar a palavra do contorno do teu pescoço
a manhã, à qual não pertences,
de repente me lança a brisa quente
e na minha boca enfim respiras teus contornos
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