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quinta-feira, 14 de maio de 2020

e l' alba è un pugno in faccia verso cui tendo le braccia
- Francesco Guccini
Amanhece, outra vez,
muito depois das pálpebras cansadas
que não encontraram ainda um dia
sequer de descanso e sensatez:
outra noite despedaçada
cortada em pequenas partes
blocos de tempo.
Se eu fosse criança, poderia ainda
brincar de lego e casinha
pegaria peça por peça e formaria
um todo talvez incoerente
mas algo poderia ainda fazer:
usaria minhas mãos
e deixaria meus olhos voltarem-se
para realidades outras, não circundantes.
Se eu fosse criança, uma outra,
brincaria despreocupada
cada bloco um objeto único, fascinante,
que se reformularia na ponta de meus dedos
conforme a vontade de meus pequenos desejos.
Mas hoje, quase aniversário da minha última solidão,
não sei diferenciar o tempo vivido, apenas o tempo sonhado:
sei que um dia é diverso do anterior e do seguinte
pela força dos meus medos
que me acompanham noite adentro
e me lembram que há sempre algo novo a ser temido
há sempre alguma morte, alguma violência:
há sempre ausência
e o sol que não esbraveja.

terça-feira, 28 de abril de 2020

o nosso amor não teve, querida,
as coisas boas da vida
o corpo encaracolado no canto
do sofá, suave feito um bicho
coberto de musgo de há tanto
que não se move, não se vive
o corpo como uma concha
esvaziada ainda (ainda)
às vezes uma menina brinca
encosta-a ao pé do ouvido
e ri baixinho com o que crê
ser eco do som do mar
e é falso
concha vazia, resquício
de alguma vida (queria)
enrolado em si mesmo
ensimesmando-se em si
voltas sem fim
sem fim mesmo
uma menina percorre
a curva com a ponta do dedo
e em algum momento
percebe que não tem
saída: é uma concha vazia
se vai da entrada
para a parte de dentro
encontra nada
direção contrária:
poderia?
ainda?

para o Geraldo meus pés acostumados ao movimento da areia e das ondas do mar do vento trazendo e levando resquícios pisam de repente os pés ...