há já não sabemos mais quantos anos escavam
novos solos em pompeia em busca incessante
por novos afrescos e pedaços-lembrança
de uma gente e sua vida esquecidas
escavam escavam escavam remexem
a terra e reviram o solo em busca de algo
novo para relembrar a tragédia-crença
de quem, crê-se, não teve tempo de salvar
a si e seus entes queridos e seu tempo
suspenso eternamente em afrescos
coloridos de vermelho amarelo
às vezes até azul e verde
escavam com cuidado que é para que
os afrescos sejam preservados e possam
ser transferidos para as paredes do museu
onde ficam organizados em salas com suas
plaquinhas de letras miudinhas que tentam
tatear um passado intocável inalcançável
ainda incansavelmente escavam e arrancam
paredes mas não todas que é pra ter gente
passeando por pompeia no presente
pensando no passado enquanto experiência
sensível da imaginação numa dinâmica
impossível; num mesmo movimento-outro
há 87 dias comecei a minha escavação
e com as unhas ou instrumentos menos
sensíveis arranco das minhas paredes
a tinta creme queimado em busca
de um passado anterior a estes 87
dias de casa sala quarto banheiro
cozinha e lavanderia gatos e plantas
e tanta tela tanto trabalho virtual
na busca-ânsia por esse passado que não é
não pode ser meu porque a tinta
é grossa de memórias de quem aqui viveu
e eu sou tão jovem ainda que isolada sozinha
nessa busca que tanto me cansa-desespera
há oitenta e sete dias repetidamente
iguais minhas mãos mecânicas cavam
escavam e arrancam lascas inteiras
pedaços miúdos violentos no salto
sem criar memória expondo por baixo
uma parede de tinta nova-anterior em
branco
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quinta-feira, 11 de junho de 2020
sábado, 7 de março de 2020
mi piaci da morire
inzuppare é uma palavra quase
técnica, distante léguas
do ato de totiar, potiar: da pucciare.
é como a limitante explicação-definição
de um engenheiro sobre
o que é o empuxo, sobre o que é
enfim sentir-se leve
o movimento de imersão
violento (tuas mãos no meu pescoço-pão)
leve (eu puxo o teu corpo são)
lento (o ritmo sagrado da refeição)
ensopar é a palavra-distância
exata que percorrem os teus
olhos castanhos demasiado
esverdeados (uma folha num lago)
lentamente dos meus joelhos nus
até os meus olhos castanhos cansados.
os teus lábios em curva:
niente, veramente niente;
dizem-me sem nada querer
dizer que as línguas se aproximam
(mesmo sem nunca se tocarem?)
pucciam'
eu pão-macio
o café tu diz: sudicio
água sporca, o café
meu, e todos esses
tão dormidos quanto eu
: nada. sem leite, só água.
a tua língua gritando: por cappuccino
; de manhã cedo
eu café passado
inzupparsi: precisão exata
do que nos deixa As Marcas;
precisão-medida do abismo
entre nossas línguas;
imprecisão do movimento:
afundar-se lento, empuxo violento
ensopar-se num mar sereno.
ensopados — a gente se ensimesmando
técnica, distante léguas
do ato de totiar, potiar: da pucciare.
é como a limitante explicação-definição
de um engenheiro sobre
o que é o empuxo, sobre o que é
enfim sentir-se leve
o movimento de imersão
violento (tuas mãos no meu pescoço-pão)
leve (eu puxo o teu corpo são)
lento (o ritmo sagrado da refeição)
ensopar é a palavra-distância
exata que percorrem os teus
olhos castanhos demasiado
esverdeados (uma folha num lago)
lentamente dos meus joelhos nus
até os meus olhos castanhos cansados.
os teus lábios em curva:
niente, veramente niente;
dizem-me sem nada querer
dizer que as línguas se aproximam
(mesmo sem nunca se tocarem?)
pucciam'
eu pão-macio
o café tu diz: sudicio
água sporca, o café
meu, e todos esses
tão dormidos quanto eu
: nada. sem leite, só água.
a tua língua gritando: por cappuccino
; de manhã cedo
eu café passado
inzupparsi: precisão exata
do que nos deixa As Marcas;
precisão-medida do abismo
entre nossas línguas;
imprecisão do movimento:
afundar-se lento, empuxo violento
ensopar-se num mar sereno.
ensopados — a gente se ensimesmando
domingo, 23 de fevereiro de 2020
non ce ne posse pazzá
no meio do nada
numa cidadezinha
onde quem mora?
um arco romano
faz-nos ver: nada
abre-se como quem?
vê-se só sem nada
para proteger, como
mãe que dá leite
sem ter filhos.
um arco em tijolos
tipicamente romanos
em pleno dia de hoje
como quem sobrevive
mas não se lembra
exatamente o porquê
numa cidadezinha
onde quem mora?
um arco romano
faz-nos ver: nada
abre-se como quem?
vê-se só sem nada
para proteger, como
mãe que dá leite
sem ter filhos.
um arco em tijolos
tipicamente romanos
em pleno dia de hoje
como quem sobrevive
mas não se lembra
exatamente o porquê
domingo, 16 de fevereiro de 2020
binario sbaiato
lê um livro
cujo título luto
pra ler
como quem tem livre
a noite já passada e vê
no trem um ponto
de partida (ida)
a linha até aqui seguida como
o que resta da onda do mar
na areia
no trem
como quem tem tempo
pra matar
todo o trajeto feito
longe do mar (volta)
o lápis vermelho (teu)
verde (eu)
o branco dos bancos
rabiscam um país così lontano
a linha do mar
a sua graça
é continuar a desenhar-se
movimentar os grãos do que
um dia foi pedra e concha e vida
e fazer parecer que assim
naturalmente
é que se rabisca uma linha
contínua
cujo título luto
pra ler
como quem tem livre
a noite já passada e vê
no trem um ponto
de partida (ida)
a linha até aqui seguida como
o que resta da onda do mar
na areia
no trem
como quem tem tempo
pra matar
todo o trajeto feito
longe do mar (volta)
o lápis vermelho (teu)
verde (eu)
o branco dos bancos
rabiscam um país così lontano
a linha do mar
a sua graça
é continuar a desenhar-se
movimentar os grãos do que
um dia foi pedra e concha e vida
e fazer parecer que assim
naturalmente
é que se rabisca uma linha
contínua
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