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domingo, 20 de dezembro de 2020

a. m.

eu tomo a vida é pelos dentes
e mordo arrancando pedaços
mesmo que use só as gengivas
que foi o que me restou
e a vida inteira se me inflama
ardendo por dentro no caminho
que faz pelos meus dentes
se expande feito espinho e entra
pela boca e a garganta e me arranca
a pele no trajeto até meu ventre gentil
e branco e vermelho de fúria e paixão
ali se instala querendo-me fazer morada
dentro de mim, a vida aqui dentro
feito uma explosão atravessando
veia e artéria o pulmão e o que tiver
a caminho do meu coração
faz-me tremer as pernas e suar as mãos
e é então que mordo-lhe mais forte
cravando-lhe no rabo os dentes
que me faltam, que me roubaram
os eletrochoques — me eletrizo
e faço, das gengivas, minha própria carne,
matéria de arma de guerra contra
essa tal vida que me se é imposta. e no buraco
da palavra trabalhada a navalhadas é que reconstruo
e me construo a vida, com minhas próprias unhas
esmaltadas

"dalla rovina del silenzio, fonda,
togliere la misura della voce"
— Alda Merini

sábado, 11 de agosto de 2018

A louca da porta ao lado, Alda Merini



O amor,
aquele que busco
decerto não está dentro do teu corpo
que deitas sobre mulheres fáceis
sem qualquer importância.
O amor que eu quero
é a presença constante
é o olho do patrão vigilante
que arde de seu cavalo.
Assim cavalguei cavalos de sombra
e os outros que me viram
correr sem freios
me consideraram louca.
De fato uma mulher que vive só
sem um escudo ornamentado
sem um ornato de crianças
não é nem mãe nem mulher
mas um nome híbrido que vem
estampado no rodapé da tua página.



La ragazzetta milanese, a miúda de Milão, é como Pasolini se referia a Merini. Numa das leituras que fiz sobre Caproni, descobri que também foi graças ao Pasolini que Caproni conseguiu se inserir melhor na cena literária romana/italiana: um grande poeta reconhece grandes poetas. E ele imediatamente reconheceu a força literária nos versos da Merini. Uma poética que experimentou duas décadas de silêncio enquanto ela esteva internada na clínica do abandono diagnosticada com distúrbio bipolar, para então voltar com La terra santa (Scheiwiller, 1984), considerada sua obra-prima. Clinica dell’abbandono (Einaudi, 2004) talvez faça referência a esses longos anos de solidão (tema que quero pesquisar no meu TCC, então talvez eu tenha coisas mais interessantes sobre isso ano que vem).


a poesia dela tem uma heterogeneidade que eu gosto muito: é arcaica e selvagem, é honesta, e tem ritmo, tudo envolto por certo mistério e certeza de sabe-se lá o que. Retomando Pasolini: “de fontes para a pequena Merini certamente não se pode falar: frente à explicação desta precocidade, desta monstruosa intuição duma influência literária perfeitamente congenial, nos declaramos desarmados”.


L’amore,
quello che io cerco
non è certo dentro il tuo corpo
che adagi su donne facili
senza alcuno spessore.
L’amore quello che voglio io
è la costante presenza
è l’occhio vigile del padrone
che arde del suo cavallo.
Così ho cavalcato cavalli d’ombra
e gli altri che mi hanno
visto correre senza briglie
mi hanno considerato pazza.
In effetti una donna che vive sola
senza uno scudo istoriato
senza una storia di bimbi
non è né madre né donna
ma un ibrido nome che viene
stampato in calce alla tua pagina.

(de Clinica dell'abbandono, Einaudi, 2004)

sexta-feira, 27 de julho de 2018

“Escuta, o passo breve das coisas
 — ainda mais breve que tuas janelas — 
o suspiro que sai do teu olhar
chama um nome imediato: a tua mulher.
É feita de sombra e ciclames
te pede teu segredo
e não o sabes dar. Com as mãos
afloras perfis de uma longa série de signos
que se chamam rimas. Abaixo, crês,
a presença veraz de folhas;
um incrível caminho
que se verte em meta de coragem.
Devastadas estão as tuas ânsias
como devastações de uma colina natural
que tenha embriões de luz,
fincada no terreno macio
e o fechamento do pântano espesso
no qual afundam as sereias,
que têm o maléolo de ouro
e a voz melosa. Tu, ó Escamândrio,
que vedas ao pai a ávida vista,
reclamas as sebes da Grécia
onde o Minotauro salta
em busca do tesouro.
Não sejas penhasco ou prece
ou qualquer coisa que se assemelhe à varanda
onde Julieta implorou um céu de morte
e uma morte de céu.”

{Poema sem título, da coletânea “La volpe e il sipario”, de 1997}


Ascolta il passo breve delle cose
-assai più breve delle tue finestre-
quel respiro che esce dal tuo sguardo
chiama un nome immediato: la tua donna.
È fatta di ombre e ciclamini,
ti chiede il tuo mistero
e tu non lo sai dare.
Con le mani
sfiori profili di una lunga serie di segni
che si chiamano rime.
Sotto, credi,
c’è presenza vera di foglie;
un incredibile cammino
che diventa una meta di coraggio.
{disponível aqui}

para o Geraldo meus pés acostumados ao movimento da areia e das ondas do mar do vento trazendo e levando resquícios pisam de repente os pés ...