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domingo, 17 de maio de 2020

a mulher também vem do barro

os dedos longos e delicados delineiam
com a ponta do pincel a pintura
que começa como uma dança
e não se sabe ao certo quem guia
mas teus olhos de menina
acertam o tom do barro
e desenhas e pintas sem medo
como mulher primeira
feito fosses de argila
: moldável
e te deleitas em aquarela
: respingas
e numa moldura simples
fazes ver moças e folhas
cabelos em cachos e olhos
em transe, em trânsito
se veem ao te ver espelhada
és uma e cem mil
a cada pincelada
um pouco de tuas mãos
um pedaço de ti que pinta
e respinga
o mundo deságuas em tons
sutis como tua voz, suaves
como teu café com leite
pintado
em pó? de onde viestes?
tudo que se sabe é que pintastes
e quem és? fazes do tato o teu traço
fazes de uma mulher algo que veio do barro

terça-feira, 29 de maio de 2018

outros nomes [ i ]

marielle
primeiro, tira a casca
que espirra pequenos prantos dos poros
e expele perfumes, uma profusão
que penetra os poros, e couros putrefatos
não menos que perpétuos.

então, te arrancam, como um gomo lacrimoso
e gotejas uma explosão de sumo glorioso
presente
mesmo na boca de quem mastiga malgrado desgostoso:
uma ruptura medonha, pútrida
inda que dulcificada.

a morte numa mordida mínima de menina
bergamota azedinha, e outros nomes tantos
querem te descaracterizar o amargor e a doçura
fervorosa, acre, pungente, etérea, amarescente,
agror na boca de quem te profana pontualmente:
na boca, perversão e azedume
no chão, casca e
semente...

sábado, 24 de fevereiro de 2018

(enquanto você toma banho)

você me chama pra colher os pêssegos
descemos entre as árvores do bosque
até encontrá-los maduros e plenos
você pega um com a mão, aperta
a pele e roça a penugem com os dedos
esguios, se delicia um momento
antes de lhe cravar os dentes amarelos
e arrancar-lhe devagar a pele
deixando o suco escorrer pelo 
canto da boca e entre os dedos
magros, você chupa com satisfação 
suave, me ri olhos e lábios, pega outro
e repete o ritual de roçar os dedos
os pêlos nas penugens no pêssego
na tua língua na tua boca o pêssego
nos teus olhos e cílios o pêssego
o suco nos nossos pés, nossos membros,
escorre pelos dedos e braços o abraço
todo molhado de suco que sugas
com a boca infinita em chamas
e não se cansa, um pé inteiro,
sem gastar o riso e o canto
que ecoam pelas árvores
no chão, a terra úmida
{02-12-17}

para o Geraldo meus pés acostumados ao movimento da areia e das ondas do mar do vento trazendo e levando resquícios pisam de repente os pés ...