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domingo, 5 de julho de 2020

cento e onze dias ecoando

a palavra mais bonita da língua portuguesa é saudade
saudade que ninguém sabe explicar o que é
e faz no máximo uma tradução meia boca
tentando dizer em línguas e palavras outras
o que só se pode sentir em língua brasileira
a palavra mais bonita da língua portuguesa foi
a mais proferida este ano que começou há tanto
tem passado tão rapidamente e ainda está longe do fim
(saudade): porque tenta-se dizer o que se sente somente
escrevo saudade de olhos fechados e olhar distante
penso na última vez em que me senti viva e me vêm à mente
mil lembranças vivas e tenho certeza que nenhuma delas é a última
nem somente minha porque vivas dinâmicas como andar na rua
escavo distraidamente e perpasso lugares atravesso e me embrenho
cidade adentro estou sentada no ponto de ônibus também esperando
enquanto ouço educadamente a história de uma mulher que esqueço
mal piso o primeiro degrau do ônibus que chega atrasado e lotado
como de costume sinto o calor de todos os corpos suspensos
em movimento sou atravessada pela violência da vulnerabilidade
de estar disponível para um encontro não planejado com um conhecido
de testar as leis da física e não ocupar o mesmo lugar que um desconhecido
que tromba comigo me conhecendo o toque ligeiro do corpo disponível
estou viva na rua vivendo estou viva nua no mundo sendo
faz frio e os dedos empedrados denunciam a demora
porque me pego pensando que tenho tanta saudade
escrevo: saudade
e apago: lembrando a impossibilidade de dizer simplesmente

saudade

I just miss you. In a quite simple desperate human way.
- Vita Sackville-West

quinta-feira, 11 de junho de 2020

há já não sabemos mais quantos anos escavam
novos solos em pompeia em busca incessante
por novos afrescos e pedaços-lembrança
de uma gente e sua vida esquecidas
escavam escavam escavam remexem
a terra e reviram o solo em busca de algo
novo para relembrar a tragédia-crença
de quem, crê-se, não teve tempo de salvar
a si e seus entes queridos e seu tempo
suspenso eternamente em afrescos
coloridos de vermelho amarelo
às vezes até azul e verde
escavam com cuidado que é para que
os afrescos sejam preservados e possam
ser transferidos para as paredes do museu
onde ficam organizados em salas com suas
plaquinhas de letras miudinhas que tentam
tatear um passado intocável inalcançável
ainda incansavelmente escavam e arrancam
paredes mas não todas que é pra ter gente
passeando por pompeia no presente
pensando no passado enquanto experiência
sensível da imaginação numa dinâmica
impossível; num mesmo movimento-outro
há 87 dias comecei a minha escavação
e com as unhas ou instrumentos menos
sensíveis arranco das minhas paredes
a tinta creme queimado em busca
de um passado anterior a estes 87
dias de casa sala quarto banheiro
cozinha e lavanderia gatos e plantas
e tanta tela tanto trabalho virtual
na busca-ânsia por esse passado que não é
não pode ser meu porque a tinta
é grossa de memórias de quem aqui viveu
e eu sou tão jovem ainda que isolada sozinha
nessa busca que tanto me cansa-desespera
há oitenta e sete dias repetidamente
iguais minhas mãos mecânicas cavam
escavam e arrancam lascas inteiras
pedaços miúdos violentos no salto
sem criar memória expondo por baixo
uma parede de tinta nova-anterior em
branco

sexta-feira, 29 de maio de 2020

quem lê tanta notícia

a felicidade é um esquecimento
—Oriana Fallaci
todo mundo sabe
que acabou
o brasil
e sentados nas ruínas
nós não mais jovens
com nossos cabelos coloridos
temos os olhos embotados
de suor e lágrimas cinzas
de tanto lavarem o ar
porque lembramos
que a bandeira que deveria ser vermelha
de sangue morte e luta
não delimita mais nada
e as mulheres, como eu,
têm o sangue escorrendo pela perna
esquerda ou direita
porque outro dia vira memória
e nada muda

variamos de tom
enquanto assistimos a mais um pôr do sol
que se põe com nossa angústia
enquanto nos dá um segundo de alegria
porque de esquecimento
nas ruínas dessa nunca um dia nação
em que sempre falamos português
e nos identificamos com italianos
e alemães, polacos, ou nada
ou a sombra das vozes caladas
e nós com nossas vogais nasais
e nosso cheiro de terra pisada
em meio a toda essa ruína
presenciamos o que belchior não esperava
(mas anunciava) o que apesar de chico
foi de novo mais outro dia:
o novo que não chega
nada foi divino, nada será maravilhoso
e não há mais qualquer compositor baiano
a dizer algo que não seja o eco
das ruas que não silenciam por seus mortos:
vivemos o mesmo dia de novo

e de novo e de novo

há setenta dias que não saímos de casa
e nada começou
há mais de vinte mil mortos
(número que se desatualiza na construção dessa linha)
e nada começou
há mais de quinhentos anos de sangue
e de américa do sul
e nada começou
mas agora começamos
a nos identificar
apenas como latinoamericanos
buscamos nos vizinhos uma xícara
de raiva da polícia, de ódio do estado
mas também de leve conforto em alguma figura
séria e responsável, que vela seus mortos
e fala com seus vivos
aqui, vergonha internacional do que nos tornamos
do que nos obrigaram a nos tornar:
falam os arautos da morte
e calam o pouco de vida que ainda se vê
agora, derrubamos o que um dia quis-se crer
fronteira entre hermanos
porque o brasil
que nunca nem começou
acabou
como amanhã
de novo
Pois deve ser uma modalidade muito especial do cólera 
- disse - porque cada morto tem seu tiro de misericórdia na nuca.
— Gabriel García Márquez

inda pago pra ver o jardim florescer qual você não queria...
Chico 

ps depois de protestos antifa no dia trinta e um de maio de dois mil e vinte
ps com as energias da esperança retomadas, como não queriam: 
o brasil pode até ter acabado
se arruinado no poço da própria 
desgraça brasileira
cavada por gente brasileira
em terras e tempos brasileiros
há mais de quinhentos anos de brasis
mas a brasilidade
está aí
como há tanto
sobrevive-se se é
brasileiro
eu era alegre como um rio...
Belchior 

quarta-feira, 20 de maio de 2020

já desandei da vida

- I love you...
- It'll pass.

Fleabag
nesta quarentena tive tempo
para reconhecer amigas
e reconhecer a mim
conversando descobri
que Paula é veterinária
e tem planos de voltar para a Europa
passa o dia cercada por cachorros
tomando cerveja na piscina, como eu
queria, e à noite é cama e gata
que Anna faz sapatos
os vende quando pode
e tem planos de abrir sua fábrica
passa o dia em casa, como eu,
cercada de paredes e memórias
que se movimentam, enclausuram
que Marina reformou a sala e a cozinha
durante a quarentena e passa o dia em função
(a mulher é a única instituição funcionando)
e tem planos com a família
que Vitor quer um novo hobbie
quer ser marceneiro além de confeiteiro
e que tem planos em andamento
que pode andare via a qualquer momento
que Maria e Luísa seguem a vida
entre surto e exercícios físicos
às vezes dão uma volta com seus cachorros
e se entristecem com as pessoas despreocupadas
e que como Luiza, Priscila e Fernanda
nem sempre sonham com engenharia
e eu me vejo nesse quadro parada no tempo
que dizem tanto tenho, continuo sendo
eternamente a mesma
nunca escrevi
um poema
um romance
um conto
nem me lembro se já escrevi
cartas, apesar de saber que as li
o movimento dos dias é lento e violento
sempre o mesmo
um mar que não se cansa de rebentar
e sinto os dias em reverso
se repetem
mas tudo tudo passa
e eu fico
sem saber sabendo
We believe in a universe in which time exists 
and therefore everything will disintegrate and be gone 
and the suffering of that is unbearable.
[...] This is hopeless. This is hopeless.
- The Midnight Gospel 

quinta-feira, 14 de maio de 2020

e l' alba è un pugno in faccia verso cui tendo le braccia
- Francesco Guccini
Amanhece, outra vez,
muito depois das pálpebras cansadas
que não encontraram ainda um dia
sequer de descanso e sensatez:
outra noite despedaçada
cortada em pequenas partes
blocos de tempo.
Se eu fosse criança, poderia ainda
brincar de lego e casinha
pegaria peça por peça e formaria
um todo talvez incoerente
mas algo poderia ainda fazer:
usaria minhas mãos
e deixaria meus olhos voltarem-se
para realidades outras, não circundantes.
Se eu fosse criança, uma outra,
brincaria despreocupada
cada bloco um objeto único, fascinante,
que se reformularia na ponta de meus dedos
conforme a vontade de meus pequenos desejos.
Mas hoje, quase aniversário da minha última solidão,
não sei diferenciar o tempo vivido, apenas o tempo sonhado:
sei que um dia é diverso do anterior e do seguinte
pela força dos meus medos
que me acompanham noite adentro
e me lembram que há sempre algo novo a ser temido
há sempre alguma morte, alguma violência:
há sempre ausência
e o sol que não esbraveja.

sexta-feira, 17 de abril de 2020

me agarro a uma sensação:
o cheiro que deixa o salsão
na minha mão, dentro
das digitais dos dedos
me identifico?
algo a identificar:
esta sensação
(que permeia as células
deste papel vazio)
esta sensação
de quem cozinha, outra vez,
o mesmo macarrão
ao molho sem preocupação
das primeiras vezes extrai
ainda alguma emoção
?
agora talvez ausente
inerte em contemplação
mas algo ainda se sente
o cheiro, na minha mão,
lento e familiar:
memória do presente
que vivo quase consciente
até que se torne
não -- você aí do outro
lado, consegue sentir?
roça o dedo na superfície
e apaga as minhas digitais?
e ainda extrai
a sensação
da folha
cortada
fresca
água
& sal
você está sentindo?
algo que emerge
sozinho

sexta-feira, 20 de março de 2020

quando rufam os tambores
dentro dentro das entranhas
abertas apertadas alucinadas
quando rufam os tambores
e a caixa toráxica não sabe
sambar no ritmo da batucada
o corpo todo estremece
como quem não sabia
da chegada do terremoto
ou da lava do vulcão
que começa a se espalhar
pelo ar e pelo chão
o corpo todo se agita
como quem de repente
se vê no meio da bateria
e se lembra de novo
que não sabe mesmo sambar
quando rufam os tambores
e a mulher se deita sentindo
o peso morto do piano de caldas
sobre o peito de vidro
o mar se rebenta
e volta a rebentar-se
na praia vazia deserta
de fim de verão
hoje ainda mais deserta
a batucada acelera

para o Geraldo meus pés acostumados ao movimento da areia e das ondas do mar do vento trazendo e levando resquícios pisam de repente os pés ...