sábado, 13 de junho de 2026

segunda-feira, 4 de maio de 2026

para a minha mãe

cubro minhas mãos de pétalas
das tuas rosas preferidas
para tocar-te a pele delicada

mas é claro 
nem sempre posso disfarçar-me
os espinhos 
as folhas secas
as pétalas desbotadas
o botão já nu
pronto para a terra outra vez? 

rebrotar-te novas pétalas
e cores e cheiros:
um jardim todo teu

não sei mais o que deixa de ser vida
e o que de ti continua

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

a fenda no meu vestido
a fendi no meu verso
a tua mão nas minhas coxas
na parte de dentro 
onde a gente sabe
é o mais intimo
a tua mão pra cima 
e pra baixo
no meu verso 
a janela treme 
o temporal estronda
e tua mão fecha a janelas 
pra nos dar privacidade
— ali me abro inversos

domingo, 22 de fevereiro de 2026

para alix

procuro a palavra do contorno do teu pescoço
reviro minhas gavetas, meus livros, os dicionários
ouço de novo meus discos preferidos, 
os filmes que me formaram e as flores perfumadas dos meus dias
nada encontro, então pego o lápis e começo a desenhar
o contorno do teu pescoço
mas a ponta não tem a espessura certa
é como se te rasgasse a pele
te tirasse o calor
e o rossor
é preciso outra folha, outro lápis, outro idioma
busco a palavra do contorno dos teus olhos 
que pintas com um lápis, pro meu terror
e desvias o olhar para a página
que não consigo te descrever
desisto e desenho o contorno da minha mão
no contorno do teu pescoço e ali me perco
 
recomeço

sussurro melodias que nunca ouvi
e enuncio versos que nunca li
nem mesmo pra ti

te busco na palavra e aí está o meu erro
te busco no som, no desenho e aí está o meu erro 
vou até a esquina como se fumasse
e ouço o tactac dos teus saltos na calçada vazia

nem o balançar da árvore me tira da cabeça
que preciso encontrar a palavra do contorno do teu pescoço

a manhã, à qual não pertences, 
de repente me lança a brisa quente
e na minha boca enfim respiras teus contornos

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

para minha mãe 

a menina deita e a abraça
feito fosse boneca 
ou travesseiro
matéria de pano 
onde secar as lágrimas

que vêm
apesar 
da chuva já ter regado suas plantas 
aos baldes

e aperta quase dormindo
sem saber o que é boneca
o que é filha de pano
o que é que lhe tem passado

só que é preciso encontrar algum conforto
um corpo quente que já foi seu
forjado em seu ventre forte
e ali se encontrar tecida 
em seda pura

: o inverso
ali fazer casulo 
e descansar as asas
que voar é privilégio 
para dias ao sol

no próximo, certamente, 
sairá a percorrer 
campos e montanhas
o pano em mãos
para caso sangrem
os joelhos ralados de menina
cheia de vida

por ora, deita
teu peso de borboleta em roseira
e me abraça

terça-feira, 9 de dezembro de 2025

na academia

a frieza da palavra
me toma como
uma lâmina
de ferro gelado
parece vidro
porque é frágil
mas me permeia
como as árvores
o vento

quinta-feira, 4 de dezembro de 2025

meu conforto é não pensar
mais em ti já não penso
olho no calendário a data
e me esqueço teu aniversário
não ouço a tua voz
nem vejo as tuas mãos pequenas
tocando meu rosto
meu conforto é te enterrar
no mar em meio às ondas
e sentir-me os olhos marejados
a boca salgada de esquecimento

domingo, 16 de novembro de 2025

nunca vi por aqui um vulcão
mas a terra vermelha que entra 
debaixo das minhas unhas é vulcânica
— o tempo atravessa e me toca a sola dos pés

sexta-feira, 7 de novembro de 2025

inventar uma nova palavra
inventar um novo mundo
traduzir uma brincadeira
que insiste em existir
na floresta da tua língua

quinta-feira, 30 de outubro de 2025

me colocaste no mundo
numa tarde quente e úmida
de novembro do teu corpo
expelias corpo e sangue-escuro
enlameando a terra por onde
eu caminharia não feito cria
feito flor feito íris-caminhante
pelo jardim dos teus dias
cortaram o talo que nos unia
a minha carne feita da tua carne
já não podia viver de ti
era preciso ser árvore
crescer explorar o solo vermelho
a areia o mar e quando dei por mim
nessa transformaria
te fizeras passarinha
desde o princípio foras feita para o ar
estou escrevendo para você de dentro de um corpo que era teu. — ocean vuong

então ajusto o timbre
que a voz é minha
a voz de menina
que não sabia
quando parar 
de falar 
então falava
sozinha
aos cotovelos. 
estrilo de alegria
e me calo em reverência
quando pela primeira vez 
coloco os teus sapatos
uso as tuas roupas
queria apenas ser outra
e tu era quem estava ao alcance. 
então ajusto o corte 
que o texto é tecido
e quero costurá-lo
à medida do teu corpo
onde já habitei
dali de dentro 
onde hoje cultivas
rosas sem nome nem cheiro
brota tanta vida
se prolifera em células enlouquecidas
a tua vida
que gerou a minha 
e hoje existe neste meu corpo
que tem também a forma do teu.
então escrevo para que neste corpo-tecido
existas a partir de mim, para que de mim saias
e habites também este Aqui
para que em mim te demores
toda a vida, explodindo os meus Alis.

um haikai embalado de sal e sol

a onda quando quebra  desenruga o mar