quinta-feira, 22 de agosto de 2024

i.

busco um homem
que me trate
como um homem

ii.

como um homem
que me coma
como um homem

iii.

trato um homem que me come
como um homem
como um peru de natal

iv.

desafio um homem
que me finque a lâmina
com afinco

v.

desfio um homem
a fio a fio
como a um novo filho

vi.

como um homem
que me busque
com as mãos

vii.
desafio um homem
que me desfie
com os dedos

viii.
dedo um homem
que me desfie
com a lâmina

ix.
limo um homem
nu que me fie
um texto

x.
como um homem
me fio
do texto

sábado, 3 de agosto de 2024

do outro lado do tempo
as roupas estendidas da memória
preenchem os varais e seu perfume
invade as janelas do agora

sábado, 29 de junho de 2024

o que parece estático, espera
Adélia Prado

para M.

os cotovelos banhados
de suco de manga
que me escorria
dos dentes cheios
de fiapos
pingava até os pés
sujos de areia
e terra vermelha
as cascas me decoravam
uma vênus tropicana do interior
que nascia pra notícia
que me davas
os lábios carnudos
e limpos pareciam
cantarolar o absurdo
"eles estão esperando a tua mãe"
ouvia mas não entendia
a minha mãe nunca se atrasa
me olhavas primeiro
com ternura e então
impaciente
me dizias
"olha bem pra eles"
e então eu via
o meu tio e a minha avó
sentados lado a lado
o mesmo olhar
que nenhum de nós
herdou
nas cadeiras de fio de mangueira
flutuam
não descansam não afundam
inclinados um na direção do outro
ao mesmo tempo conversam
e calam
o silêncio agravando as suas auras
como numa pintura numa foto
antiga nos olham em preto e branco
um movimento que não sai
do lugar
as mãos perpetuamente quase
se tocando
"na imagem tem algo faltando"
o tom sério
"presta atenção e vê"
o meu rosto todo salgado
e eu não --
sonhava um mar azul
tudo imóvel os meus pés fincados
a imagem impenetrável diante de mim
eu sabia
eles a aguardam
pacientes
com saudade
com tempo
para toda uma vida
ela em algum lugar caminha serena
o verde dos olhos iluminando tudo
um brilho impossível
na sua mão eu sei carrega margaridas
girassóis e todas as suas rosas
onde seu pé toca
do chão brota
vida
não posso me virar e acompanhar
o meu corpo estático então
tudo adivinho pelos seus olhos
e percebo enfim:
o mesmo olhar me se desenha
nas pálpebras e aos poucos
eu vejo
que sim
eles esperam

também a mim

quinta-feira, 6 de junho de 2024

minha pele me trai
esse contato completo
e abrasivo com teu ar
teus olhos e teu dialeto
me desnuda minha pele
me trai porque não
me esconde
me revela
em cada detalhe
em sua textura
um exato tom
de vermelhidão
me denuncia
feito fosse fruta
sem casca

pronta para teus dentes

terça-feira, 4 de junho de 2024

 para d.

tua voz ecoa
ressoa no espaço
vibra meus dedos
dançantes
ao te escreverem
melodias nuas
tua voz essa música
faz tremer o vidro
que mal nos contém
meu medo era o estilhaço
copos incapazes de conter líquidos
eu toda água e fogo já incapaz
de me conter do teu ritmo
da tua voz do teu ar e tremia
corpos capazes de se liquefazerem
e enfim rebentarem a mesma onda

quinta-feira, 23 de maio de 2024

uma fome que não cabia em mim
a tudo que me oferecias dizia sim
cada pedaço agarrava com as mãos
sujas de terra e pele as unhas
temperavam o mel que de ti escorria
te comia com os dentes e a língua
percorria a mesa atrás de migalhinhas
algo de ti que me alimentaria ainda
mais um pedaço um gole um punhado
um punhado um punhado um punhal
fui te fatiando inteira cega não percebi
tudo o que eras cabia perfeitamente aqui
na palma lambuzada das minhas mãos
: sobrava de ti e ainda faltava em mim

segunda-feira, 20 de maio de 2024

as imagens se repetem
infinitas preenchem
o longo vazio

da tela

quinta-feira, 9 de maio de 2024

das conchas

todo ato de fala verdadeiro
é um gesto de coragem
e nada mais forte
do que ser 

                                                     vulnerável

nas praias do eu
as conchas que se abrem
prontas para o sal e a areia
das tuas mãos

sábado, 4 de maio de 2024

pra você, que não mais me lê

o tempo é uma armadilha do espaço
uma caixa de papelão apoiada num galho
no meio de um bosque da infância
à espera de um pássaro desavisado
que passa como quem não quer nada
e se prende ali dentro
daquele passado

então, voa

terça-feira, 16 de abril de 2024

na minha cidade há uma rua
em que os carros param e
parecem à beira do abismo
esperam o semáforo
e dali pra frente é só pra baixo
rumo ao horizonte
entram nas nuvens
ali caminho

segunda-feira, 8 de abril de 2024

não quero fazer de ti minha morada
contigo não estou
não és residência
contigo não é hábito
és o centro de tudo
que estou e habito
és o cerne
: meu domicílio

para o Geraldo meus pés acostumados ao movimento da areia e das ondas do mar do vento trazendo e levando resquícios pisam de repente os pés ...