sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

a fenda no meu vestido
a fendi no meu verso
a tua mão nas minhas coxas
na parte de dentro 
onde a gente sabe
que é o mais intimo
a tua mão pra cima e pra baixo
no meu verso 
a janela treme com o temporal 
e tua mão fecha a janelas 
pra nos dar privacidade
e eu te abro os versos

domingo, 22 de fevereiro de 2026

para alix

procuro a palavra do contorno do teu pescoço
reviro minhas gavetas, meus livros, os dicionários
ouço de novo meus discos preferidos, 
os filmes que me formaram e as flores perfumadas dos meus dias
nada encontro, então pego o lápis e começo a desenhar
o contorno do teu pescoço
mas a ponta não tem a espessura certa
é como se te rasgasse a pele
te tirasse o calor
e o rossor
é preciso outra folha, outro lápis, outro idioma
busco a palavra do contorno dos teus olhos 
que pintas com um lápis, pro meu terror
e desvias o olhar para a página
que não consigo te descrever
desisto e desenho o contorno da minha mão
no contorno do teu pescoço e ali me perco
 
recomeço

sussurro melodias que nunca ouvi
e enuncio versos que nunca li
nem mesmo pra ti

te busco na palavra e aí está o meu erro
te busco no som, no desenho e aí está o meu erro 
vou até a esquina como se fumasse
e ouço o tactac dos teus saltos na calçada vazia

nem o balançar da árvore me tira da cabeça
que preciso encontrar a palavra do contorno do teu pescoço

a manhã, à qual não pertences, 
de repente me lança a brisa quente
e na minha boca enfim respiras teus contornos

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

para minha mãe 

a menina deita e a abraça
feito fosse boneca 
ou travesseiro
matéria de pano 
onde secar as lágrimas

que vêm
apesar 
da chuva já ter regado suas plantas 
aos baldes

e aperta quase dormindo
sem saber o que é boneca
o que é filha de pano
o que é que lhe tem passado

só que é preciso encontrar algum conforto
um corpo quente que já foi seu
forjado em seu ventre forte
e ali se encontrar tecida 
em seda pura

: o inverso
ali fazer casulo 
e descansar as asas
que voar é privilégio 
para dias ao sol

no próximo, certamente, 
sairá a percorrer 
campos e montanhas
o pano em mãos
para caso sangrem
os joelhos ralados de menina
cheia de vida

por ora, deita
teu peso de borboleta em roseira
e me abraça

a fenda no meu vestido a fendi no meu verso a tua mão nas minhas coxas na parte de dentro  onde a gente sabe que é o mais intimo a tua mão p...