terça-feira, 16 de abril de 2024

na minha cidade há uma rua
em que os carros param e
parecem à beira do abismo
esperam o semáforo
e dali pra frente é só pra baixo
rumo ao horizonte
entram nas nuvens
ali caminho

segunda-feira, 8 de abril de 2024

não quero fazer de ti minha morada
contigo não estou
não és residência
contigo não é hábito
és o centro de tudo
que estou e habito
és o cerne
: meu domicílio

terça-feira, 2 de abril de 2024

pensava na duração do universo
da vida essa lenta explosão
um gato quente veio e sentou
na mão desavisada
o ritmo com que pulsa
seu pequeno coração 
— compreensão

quis escrever um poema político
e quase que instantaneamente
de uma linha para outra
ele já não era tão atual
nem tão político
nem tão poético
menos bonito
se muito
era

quinta-feira, 28 de março de 2024

um poema

é como
uma espinha
a vontade é
de arrancá-la
espremê-la
entre as unhas
imundas
apertá-la
com os dedos
oleosos
e quanto mais
se tenta
pior ele fica
um poema
sujo
como uma espinha
há que se deixar
secar e morrer
de desistências
antinaturais

quinta-feira, 14 de março de 2024

sábado, 9 de março de 2024

corpo a corpo

tomar-te seria
totalmente vulgar
tenho a tua distância
trato de dar tempo
ao ritual do toque
encosto na tua mão
entendo que não é minha
ainda e aos poucos me revolto
me revolvo ao teu redor
teus olhos sofisticado
redemoinho de desejo
te tomo inteiro sob meus braços
te derrubo e te cubro
com o meu corpo seminu
e quente
nossos dedos se entranham
agarro a tua pele macia
sinto os teus músculos tensionados
todo o teu corpo
duro
cheiro o teu suor e o teu prazer
me debruço sobre ti enfim
te conquisto

minha entrega

assisto a dança do desejo
nos olhos atentos
e nos joelhos
dos gatos
antes de caçarem sua presa

como o tempo passa lento
quando o
contamos

sexta-feira, 22 de dezembro de 2023

o mundo desta formiga
infinitamente maior
e mais antigo
que o meu
é de areia
sal e cascalho

sexta-feira, 8 de dezembro de 2023

"não é o fim do mundo,
só do universo"

para A. em ocasião da sua partida

daqui a alguns trilhões de anos, quando o tempo não fizer mais sentido e a última anã branca sozinha estiver estabelecendo tudo o que ainda não conhecemos, nada disso vai importar mais.

mas enquanto sei a diferença temporal entre uma onda e uma montanha, trato como sendo da maior importância.

precisamente pela raridade de reencontrar um amor e vivê-lo em sua pureza.

por desatar nós e finalmente
saber dizer que te amo.

contigo longe, ainda vou comer na nossa pizzaria e a pizza continuará saborosa. saborosíssima. moradores de rua em busca de um trocado pra pinga e pra droga virão falar comigo diretamente. e eu vou pensar em ti, esboçando um sorrisinho cheio de saudade.

tu, também, vais ter a audácia de continuar rindo gostoso. vais te deitar em outras camas e amar outros gatos.

a lembrança da tua pele e da tua risada serão raios do teu sol nos meus dias chuvosos. e eu vou ter que te buscar na memória, lembrar de como rio contigo e da calmaria do teu abraço, onde me torno fluida — rio, mar, lágrima, suor --

no auge do teu atrevimento, vais levar de mim uns escombros de amor.

e tudo vai passar, erodindo a memória.

mas daqui, vendo a onda se formar gigante, meu desejo é que ela não quebre nunca. que se torne montanha. que por alguns trilhões de anos a gente fique nessa beira de praia sentindo o sal na pele. porque, quando aquela última estrela renovar o universo, algo de nós ainda vai estar lá. pronto pra rebentar.

para o Geraldo meus pés acostumados ao movimento da areia e das ondas do mar do vento trazendo e levando resquícios pisam de repente os pés ...