domingo, 16 de março de 2025

antiaceleracionismo

no jardim de rosas da minha mãe
nasceram duas novas rosas
uma branca rajada de rosa
das pontas para dentro
e uma entre o laranja
e o vermelho
talvez alguém saiba
o nome
dessa cor
o cheiro é delicado
parece quase como
quando alguém passa
por um corredor
e quando você chega
tem só o perfume
de quem passou
como numa cena
do ozu

essas rosas
existem por alguns dias
a oportunidade
(esse cavalo selado
que passa galopante
na minha frente,
meu pai me ensinou)
não é uma janela
é uma fresta
por onde por acaso
entra alguma luz
e uma brisa

nos dias em que vivem
desde o botão
até as pétalas se tornarem marrom
são um lembrete
da beleza inescapável da vida
é uma rosyo story
um lembrete

de que a vida
é esta

uma

e não tem pressa

as rosas desdobram o nome
e o tempo

sexta-feira, 14 de março de 2025

to estimate the inestimable

de uma cena de la chimera

decapitar uma estátua
tirar só a cabeça de cibele
de seu santuário
criar o mistério
aumentar seu valor

non sei fatta per gli occhi degli uomini 

deixar para trás animaizinhos
e um felino aos seus pés
rugindo para nenhum ouvido
colocá-la numa sala
enorme
mal decorada
na mesa em que um gato
se aninha ctônico
e evocante

domingo, 2 de fevereiro de 2025

Adivinho o vendaval
pelas goiabas estateladas pelo chão
pelo desenho do teu corpo
na grama úmida e amassada
pelo vaga-lume que se confunde
no céu noturno e pouco a pouco cravejado
pelos olhos que se adaptam à luz das estrelas

que apesar de tudo
chegam

numerosas

e colocam tudo 
na justa medida

domingo, 5 de janeiro de 2025

nos meus erros
acabei por ver
só eros

quarta-feira, 25 de dezembro de 2024

teu corpo é um acúmulo de estações
de chuvas e tempestades carregadas de trovões
de sóis e veraneios salgados com cor de fruta madura
nele estão todos os anos e todos os filhos
a tua criança e a tua mãe juntas
na pontinha da tua unha a dor de algumas separações
e quando passas as pontas dos dedos recordas
o caminho da cicatriz, desenho de tantas reparações

sexta-feira, 20 de dezembro de 2024

primeiro o dedo
se enfia no suco fermentado
a textura das pequenas bolhas
do peso da fruta mais que madura
parecem querer decompor também
este corpo
então a mão
tenta agarrar ali dentro algo de vida
pensa em picles e cogumelos crescendo
na roseira que a cada alguns dias se renova
não sabe se deve fazê-lo
se o processo de fermentação
de deixar apodrecer o que não tem mais lugar
é tão impuro quanto seu corpo
se seria possível jogar um pouco de açúcar
por toda a sua pele e se deixar transformar
levada a outro estado de impermanência
ou se antes muito lygianamente seria comida por formigas

sábado, 9 de novembro de 2024

33

será meu aniversário outra vez
me pedem listas
títulos
objetos
desejos palpáveis
porque é muito
mais difícil
dar algo de nosso

me explico
a esta altura
aceito
do que me oferecerem
o que me alcançar
chicotes, espinhos? cruzes!

domingo, 13 de outubro de 2024

bolinhos de chuva da vovó

para minha Vó, cujos dedos sujos de massa estão nessa forma
para minha Mãe, que me disse que eu precisava aprender
para Mari Vogt, que nunca saberá por mim desta dedicatória

Você primeiro
pega uma vasilha velha
que nem lembra de quem é
ou como a quebrou
Então
os ingredientes
arranjados nesta
proporção
mas pode alterar
se quiser
basta
dar o ponto
10 colheres bem cheias de farinha de trigo
5 colheres não tão cheias de açúcar cristal
1 colher de pó royal
não sabia que a tampinha servia pra isso
as pessoas vão descobrindo coisas
3 ovos de preferêncai bem amarelinhos e firmes
para que o bolinho saia amarelinho e firme também
vai misturando e acrescenta
água
aos poucos
até
o ponto
Em óleo fervente
porque você deveria já ter deixado o óleo esquentando
testa com o palito pra não desperdiçar massa
Essa parte é muito importante
Eu não sei fazer a bolinha
as da minha mãe eram perfeitas
As minhas
têm pontinhas
o movimento da mão
(ela não sabe que me diz
o seu dedo a delata)
é fundamental
 (ali o seu erro)
Pega meia colher bem limpa
de massa
bem rasa
e com o dedo põe no óleo fervente
sem se queimar
(ela me repete desesperada
eu que já me queimei tanto)
(O seu toque especial é
limpar o dedo
uma segunda vez
criando a pontinha
o acréscimo de massa
que se mistura
à fritura)
(A bolinha pré-formada abraça
a pontinha e frita por inteira
Perfeita)
E tira quando estiver bem bonita

domingo, 6 de outubro de 2024

(libido entre criadora e criatura)

ora thiago falando de frankenstein

entro
nos teus lábios
observo cautelosa
a flor que se abre
entre meus dedos
toco a carne
da tua boca
desdentada
crio espaço
no pulso do teu
coração que hoje
especialmente para mim
não sangra
me espera
ali dentro
não crio
poderíamos
querendo a natureza
procriar
eu com meus dedos
em mim
fazendo nascer
o poema

a minha língua se dobra
se parte ao meio e ocupa
duas bocas
me quebra em línguas
o corpo é este
queimado e com uma leve
esfoliação a pele lisa
a língua desdobra
invade memórias e cobre
o que sobra da vida
come areia e terra
vermelha
cheia de r
a língua de cobra
me cobra
uma bifurcação
a vida em duas
partes inteiras
sempre
fora do lugar
o pé vermelho
na beira da praia
sem saber se arrasto
ou enrolo
a língua
em latossolo
vermelho vulcão
ou em pequenas
conchinhas
fragmentadas
 

sabe de sal arenoso
as pontas da língua

terça-feira, 1 de outubro de 2024

como é que se quebra
um poema
em versos
tão pequenos
que caibam nas tuas mãos
para que possas pegar
sentir-lhe as arestas
e ver o sangue correr
com vida
de cada esquina
do poema-caco
de vidro e cheio de lascas
de madeira — não terias
nas mãos um espelho
talvez
uma velha bola
de cristal
com anjinhos e falsas
neves dentro
dos dias da tua infância
pronta pra rebentar

para o Geraldo meus pés acostumados ao movimento da areia e das ondas do mar do vento trazendo e levando resquícios pisam de repente os pés ...