segunda-feira, 4 de dezembro de 2023

um último de amor

 para M. na ocasião de seus 35 anos

é um nó que me ata os dedos
instrumentos da minha atual comunicação
no dia de celebrar iansã teu corpo todo se faz festa
território encantado dos teus segredos
meus dedos te percorreriam feito pés de samba descalço
acariciariam teus pelos (minhas matas) tuas têmporas
perdi o tempo de fazê-lo
atada como estou
inútil explicar a qualquer um
como sou capaz de desatar-me aqui
como escrevo-te sem ser para ti
que não me lês e mal sabes como estou
como te escrevo buscando-te na memória
tentando te celebrar neste espaço que criei
só para ti: um átimo de amor
mas é um nó o trago que me entala a garganta
não há mais estações de águas a arrebentá-lo
teu corpo então se tornou território sagrado
que meus dedos imundos não festejam mais
que minhas lágrimas salgadíssimas não banham mais
teus pés tuas mãos teus dedos livres não beijo mais
no ar que entra pela tua janela um cheiro salino de mar te alcança
: minhas tempestades a te desejar calmaria
finalmente a calmaria
único presente que pude te dar

domingo, 26 de novembro de 2023

para alda

à beira do mar
os pés afundam na areia
mulher-escultura das ondas
corpo-festa da vida micro
assim o mínimo
se faz imenso

quinta-feira, 16 de novembro de 2023

¿Qué sabe un forastero sobre tomar un buen mate?
Nadie le dijo cómo se ceba: si amargo o untado en miel,
hojitas de cedrón o cáscaras de naranja.
Que el agua no se deja hervir,
que amaina el apetito y sosiega la mente.
¿Qué pienso? Quizá me complazca
y un día me instale con mi bombilla
en la arena movediza de la yerba.

 

O que sabe um forasteiro sobre tomar um bom mate?
Ninguém lhe disse como se prepara: se amargo ou untado de mel,
folhinhas de lúcia-lima ou cascas de laranja.
Que a água não se ferve,
que acalma o apetite e sossega a mente.
O que eu acho? Quem sabe me agrade
e um dia me instale com a minha bombinha
na areia movediça da erva.

quarta-feira, 15 de novembro de 2023

como se diz tchau
para uma tartaruga?
há um movimento
de mão
de corpo
de voz
que ela entenda?
há algo que a faça
entender que a vida
aqui fora me
exige que eu vá?
acima de tudo
a chuva me exige
a retirada
a pele assim
desprotegida assim
sem casco enfim
fora do lago
eu macaquinha
morangos na mão
a tartaruguinha
furtivamente vai roubar
assim que eu sair
então deixo mais um
um pequeno banquete
para que ela entenda
aquele morango
todo vermelhinho
doce cheio de sementes
é meu coração
o pedaço de amizade
que posso lhe deixar
enquanto a vida
com v minúsculo
me leva na enxurrada

quarta-feira, 18 de outubro de 2023

às vezes é preciso parir um texto
parir um texto para que ele exista
nasça numa página em branco
um pedaço da tua carne
caminhando livre por aí
sendo seu próprio corpo
cometendo os mesmo erros
teus e da tua avó
não, às vezes é preciso
amputar um texto
feito mão ferida de guerra

sexta-feira, 13 de outubro de 2023

sonhei minha mão descamando
feito pele de cobra
como se algo sob
a pele de sempre
precisasse surgir
nova como se
eu precisasse
assim
ir me tornando
eu

quarta-feira, 11 de outubro de 2023

nesta primavera
as folhas 'inda caem
: outonais
num pote de plástico preto
uma pequena flor luta
tenta brotar bruta contra
os dias de dilúvio

quinta-feira, 5 de outubro de 2023

zeros e uns

 há muitos ciclos
a matemática explica
a psicologia percebe
a astrologia significa
o ciclo de retrogradação
de vênus em cada signo
dura o quanto duramos
: a idade de uma criança
que não fizemos ver o mundo
que não vimos nascer em nossas mãos
morremos muito antes
e vivemos o esgotamento
fomos agraciados
eu e você
com a vida e a morte
vivemos tudo
em alguns ciclos
oito anos ditos
vivemos tudo?
nos reduzimos a um
número infinito
que não cabe
numa linguagem que zera
o sentido

segunda-feira, 11 de setembro de 2023

a chuva torturava o asfalto
o cimento da calçada
e a velha cadeira na varanda
o vapor subia e o teu corpo
era o último recanto quente
a tarde-ventre de repente feita noite
e só teu corpo luzia quase neon
teu prazer era tamanho
pareceria até artificial
mas olhos nus são experientes
veem na tua carne a vitalidade
que pulsa e é molhada
vem em enxurradas

teu corpo tormentava o asfalto
as janelas fechadas
as cortinas semiabertas
os olhos cobertos do teu prazer
teu corpo tormenta do céu
cada trovoada um gemido
teu corpo tormentava as nuvens
que corriam em tua direção
pra ser Uma contigo no prazer
teu corpo a tortura última
a pequena morte úmida

sábado, 9 de setembro de 2023

[numa tarde vendo a hercílio luz do primeiro andar]

se você
para
e
escuta
por baixo do barulho dos carros
em cada
árvore
se revela
a vida
musical
dos pássaros

sexta-feira, 1 de setembro de 2023

pouco me importa
o teu arroz com feijão
do amor
minha fome é outra
não como mais palavras
tuas páginas em branco
como um prato vazio
não me alimentam
nem teu silêncio
me desespera

minha fome é outra

precavida

sprecavita para o Geraldo  era preciso cuidado com as palavras ensaiadas e questionadas repetidamente antes de enfim tomarem forma e vibraçã...