quinta-feira, 19 de agosto de 2021

hoje um homem comprou
um terreno na lua

na terra um homem compra
uma carcaça descarnada pra janta

quarta-feira, 14 de julho de 2021

sento-me à beira do oceano
no limite da pintura das montanhas
aos meus pés o mar num movimento
impossível me transborda as retinas
na sua superfície se tensiona em plástico
numa tensão elástica como outra pintura
à óleo o mar inteiro queimando à luz
do sol insistente e cortante entre as nuvens
cinzas que tingem tingem extinguem
retinto o ruído da criação numa explosão
contínua de sentidos insignificantes como
a pele roçando na grama à beira do oceano

quinta-feira, 29 de abril de 2021

pedem que a linguagem mude
que ela mude a pedido deles
e por favor passe a entender
que não há mais sentido em dizer
se é que já houve algum sentido no dizer
na verdade é isso nunca houve sentido dizer
o mar
el mar
il mare
quando há o conforto de
la mer

imploram, este homens miúdos
os pulmões cheio do sal do mar imenso
invocam para si o direito da mudança
dizem: é preciso mudá-lo!

mas ignoram
que não há mar
sem a maré
num movimento só

domingo, 7 de março de 2021

i've been thinking and i come to the conclusion
that it's what you've been saying all this time

é branca a parede que me olha
da memória
você se levanta outra vez e falha
em traçar um novo caminho
mas é a mesma, a sala
até o vapor do seu café
percorre novas trilhas
eu digo e você me fita
me prega os olhos
me apedreja mudo
como quem quer algo
que seja dito impronunciável
eu conheço o som?
é possível que sim
o mesmo do teu pé chato
pisando o piso gelado
em pleno verão tropical?
não me lembro e caso
me lembrasse não saberia reproduzir
me levantaria e pisaria atrás de ti
tentando imitar à confusão
do espaço que ocupamos
em x=t ou x=y
o silêncio que se perpetua
entra em cada fresta
por cada fresta entra
e permanece aqui evaporando
desenhando novas linhas

quarta-feira, 3 de março de 2021

são diversos os tipos
de animais que nos rodeiam
classificados de acordo
com sua alimentação
herbívoros & frugívoros
onívoros & carnívoros
detritívoros & necrófagos
mas eles: saprófagos
tem pra todo gosto
e é o gosto que define
o animal que se é
pouco importa
se tem muito ou pouco
escama pelo pena
nem mesmo os dentes
que mastigam
ferozes os sagazes
vestidos
como
nós & eles
nossos dentes cravam
a carne porosa da maçã
& eles nos olham sem vermos
—vermes caminham invisíveis—
trocamos
de dentes e então
mastigamos,
destroçamos
cada
fibra da fruta fresca
& eles nos aguardam
silenciosos num sorriso
mal esboçado
parecem quase vivos
e mudamos de lugar na cadeia
para seu agrado? não sabemos ao certo
encontramos algo que resta
ainda
no chão
pútrido
de outros
corpos
preparados, lentamente
como seremos nós
para a ceia
desses
que nos matam
legal & cívicamente
todos os dias
sem precisar
nem olhar
ou suar
e aguardam
o momento certo
para sua saprofagia
o sabor máximo
de sua orgia

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2021

terra encantada
faz-se mágica
aos vagalumes
previu-se não
algo desde
esse Antes
luz que resta
é néon
pela fresta
qualquer mato
já não há
insustentável
encanto dado

domingo, 7 de fevereiro de 2021

a vida é feita é entre teus dentes
onde minha carne de pêssego
maduro encontra seu fim
tão desejado: o sentido
último do meu respiro

terça-feira, 19 de janeiro de 2021

é noite
o que entra
pela janela

trancada

sábado, 9 de janeiro de 2021

amr 01 fsct

é fácil amá-lo
quando diz obrigado
e sorri ao cumprimentar-te
vê-se nele o mesmo homem que
não mede gentilezas
então é fácil amá-lo
no dia a dia
é fácil
porque ao olhá-lo
vê-se o sorriso não tão branco
(cheio de dentes)
as rugas simpáticas
não são sinais
não denunciam
não há marcas aparentes
(nem mesmo nas unhas
uma imundície perene)
ao olhá-lo é fácil
no meio da multidão
as mãos que aplaudem
em meio a tantas outras mãos
o fim da peça infantil
em que você estrelou
como uma galinha
no meio de um coro de aves
é fácil
fechar os olhos
e amá-lo
de coração cheio
mãos e dedos que batem
palmas
que comandam
o sorriso
estampado na boca cheia
(de dentes)
de palavras doces
tão gentis
as palavras
tão organizadas
as mãos que aplaudem
tão limpos os dedos e as unhas
o cabelo bem penteado
e a barba feita
tudo ordenado
limpo
& fácil
é fácil olhar para o lado
e amá-lo
é fácil

domingo, 20 de dezembro de 2020

a. m.

eu tomo a vida é pelos dentes
e mordo arrancando pedaços
mesmo que use só as gengivas
que foi o que me restou
e a vida inteira se me inflama
ardendo por dentro no caminho
que faz pelos meus dentes
se expande feito espinho e entra
pela boca e a garganta e me arranca
a pele no trajeto até meu ventre gentil
e branco e vermelho de fúria e paixão
ali se instala querendo-me fazer morada
dentro de mim, a vida aqui dentro
feito uma explosão atravessando
veia e artéria o pulmão e o que tiver
a caminho do meu coração
faz-me tremer as pernas e suar as mãos
e é então que mordo-lhe mais forte
cravando-lhe no rabo os dentes
que me faltam, que me roubaram
os eletrochoques — me eletrizo
e faço, das gengivas, minha própria carne,
matéria de arma de guerra contra
essa tal vida que me se é imposta. e no buraco
da palavra trabalhada a navalhadas é que reconstruo
e me construo a vida, com minhas próprias unhas
esmaltadas

"dalla rovina del silenzio, fonda,
togliere la misura della voce"
— Alda Merini

domingo, 13 de dezembro de 2020

perde-se o tempo inteiro a noção do tempo
que escorre lento entre nossos dedos sebentos
de quem não conhece mais o sabor da terra
a textura das minhocas e das folhas quebrantes
de quem não sente a brisa quente entre os cabelos
e que da luz vê apenas a sombra lancinante
do que ouve apenas uma nuance do que se diz
e quando olha pela janela é apenas mais janelas
e fraturas na estrutura dos prédios que se vê
perde-se o tempo o tempo inteiro e a noção
de que há algo a ser perdido ainda persiste
como uma quimera que se manifesta entre
os vãos do chão de cerâmica já tão velhos
por entre os quais não nasce sequer um musgo
que já é um tipo de vida: reconhecidamente
desconhecida entre as paredes quentes de sol
e de concreto e antes fosse barro batido
algo que lembre outra vez a mudança
que o tempo permite mas que hoje
sente-se perdido

a silhueta da sua barriga se desenha e uma cidade desaparece do mapa litorâneo as suas células são criativas e se reproduzem enquanto a geog...