são diversos os tipos
de animais que nos rodeiam
classificados de acordo
com sua alimentação
herbívoros & frugívoros
onívoros & carnívoros
detritívoros & necrófagos
mas eles: saprófagos
tem pra todo gosto
e é o gosto que define
o animal que se é
pouco importa
se tem muito ou pouco
escama pelo pena
nem mesmo os dentes
que mastigam
ferozes os sagazes
vestidos
como
nós & eles
nossos dentes cravam
a carne porosa da maçã
& eles nos olham sem vermos
—vermes caminham invisíveis—
trocamos
de dentes e então
mastigamos,
destroçamos
cada
fibra da fruta fresca
& eles nos aguardam
silenciosos num sorriso
mal esboçado
parecem quase vivos
e mudamos de lugar na cadeia
para seu agrado? não sabemos ao certo
encontramos algo que resta
ainda
no chão
pútrido
de outros
corpos
preparados, lentamente
como seremos nós
para a ceia
desses
que nos matam
legal & cívicamente
todos os dias
sem precisar
nem olhar
ou suar
e aguardam
o momento certo
para sua saprofagia
o sabor máximo
de sua orgia
quarta-feira, 3 de março de 2021
quinta-feira, 18 de fevereiro de 2021
domingo, 7 de fevereiro de 2021
terça-feira, 19 de janeiro de 2021
sábado, 9 de janeiro de 2021
amr 01 fsct
é fácil amá-lo
quando diz obrigado
e sorri ao cumprimentar-te
vê-se nele o mesmo homem que
não mede gentilezas
então é fácil amá-lo
no dia a dia
é fácil
porque ao olhá-lo
vê-se o sorriso não tão branco
(cheio de dentes)
as rugas simpáticas
não são sinais
não denunciam
não há marcas aparentes
(nem mesmo nas unhas
uma imundície perene)
ao olhá-lo é fácil
no meio da multidão
as mãos que aplaudem
em meio a tantas outras mãos
o fim da peça infantil
em que você estrelou
como uma galinha
no meio de um coro de aves
é fácil
fechar os olhos
e amá-lo
de coração cheio
mãos e dedos que batem
palmas
que comandam
o sorriso
estampado na boca cheia
(de dentes)
de palavras doces
tão gentis
as palavras
tão organizadas
as mãos que aplaudem
tão limpos os dedos e as unhas
o cabelo bem penteado
e a barba feita
tudo ordenado
limpo
& fácil
é fácil olhar para o lado
e amá-lo
é fácil
domingo, 20 de dezembro de 2020
a. m.
eu tomo a vida é pelos dentes
e mordo arrancando pedaços
mesmo que use só as gengivas
que foi o que me restou
e a vida inteira se me inflama
ardendo por dentro no caminho
que faz pelos meus dentes
se expande feito espinho e entra
pela boca e a garganta e me arranca
a pele no trajeto até meu ventre gentil
e branco e vermelho de fúria e paixão
ali se instala querendo-me fazer morada
dentro de mim, a vida aqui dentro
feito uma explosão atravessando
veia e artéria o pulmão e o que tiver
a caminho do meu coração
faz-me tremer as pernas e suar as mãos
e é então que mordo-lhe mais forte
cravando-lhe no rabo os dentes
que me faltam, que me roubaram
os eletrochoques — me eletrizo
e faço, das gengivas, minha própria carne,
matéria de arma de guerra contra
essa tal vida que me se é imposta. e no buraco
da palavra trabalhada a navalhadas é que reconstruo
e me construo a vida, com minhas próprias unhas
esmaltadas
"dalla rovina del silenzio, fonda,
togliere la misura della voce"
— Alda Merini
domingo, 13 de dezembro de 2020
perde-se o tempo inteiro a noção do tempo
que escorre lento entre nossos dedos sebentos
de quem não conhece mais o sabor da terra
a textura das minhocas e das folhas quebrantes
de quem não sente a brisa quente entre os cabelos
e que da luz vê apenas a sombra lancinante
do que ouve apenas uma nuance do que se diz
e quando olha pela janela é apenas mais janelas
e fraturas na estrutura dos prédios que se vê
perde-se o tempo o tempo inteiro e a noção
de que há algo a ser perdido ainda persiste
como uma quimera que se manifesta entre
os vãos do chão de cerâmica já tão velhos
por entre os quais não nasce sequer um musgo
que já é um tipo de vida: reconhecidamente
desconhecida entre as paredes quentes de sol
e de concreto e antes fosse barro batido
algo que lembre outra vez a mudança
que o tempo permite mas que hoje
sente-se perdido
era uma vez um passarinho cantarolante
que cantarolava alegremente sem parar
e um dia certo dia veio a encontrar
uma mulher que lhe ouvia cantarolar
e insistia em lhe dar água para beber
e também insistia numas migalhas de
amor
e como a natureza é poderosamente
e tristemente frágil foi assim tão fácil
construir (no antes céu) ao redor do ninho
uma gaiolinha de madeira onde o passarinho
cantava desesperadamente sufocante como
quem busca num ímpeto constante criar no ar
uma fissura
mas nem o mais cruel dos deuses amantes
lhe ouve ou lhe dá atenção e o passarinho
frustrado e incompreendido e ressentido
de sua natureza e sua súbita companheira
começa a bicar e a comer o invólucro
de carne e osso que lhes circunda
que aprisiona
assim seu canto surdo se transforma súbito
que na natureza alguma forma de liberdade
há de se ter e nem que seja criando dentes
e comendo seu caminho pra fora do terror
e sujar-se de sangue e ouvir-se aos gritos
aos prantos e sentir na barriguinha uma fome
uma terrível queimante fome de pão e
um canto
quinta-feira, 10 de dezembro de 2020
nem tudo tem
uma explicação
por isso a existência
o verbo
é
porque tudo são
e está explicado
o verbo
é
intransitivo
como todo verbo
nenhuma ação
precisa
tem complementação
aliás
nem mesmo uma ação
imprecisa
precisa de complement
-ação
aí a impossibilidade
de compreensão
porque o verbo
é
algo que foge
passa por nós
feito uma sombra
numa casa escura
num dia chuvoso
à noite, e as velas
que trazemos
aliás
que empunhamos
mal nos permitem
a derrota
de ser
quinta-feira, 3 de dezembro de 2020
ti penso ancora,
e lo sai
é engraçado (é?)
come la parola
morente
queira dizer algo
a respeito da vida
e como la stessa
medesima
parola
non abbia o mesmo
mesmíssimo significado
em português:
que morre, que fala
da morte
mi diverte
ancora di più
pensare che non ci sia
vida sem morte
e obvviamente
morte senza vita
cioè (tu ed eu)
que i limiti siano impossíveis
ma comunque imagináveis
quindi: divertente
quase que diverge
c'è sempre un gioco
sempre sempre um joguinho
e noi proviamo ad inseguirlo
capirlo, assaggiarlo
colocá-lo dentro dentro
dentrinho
nas entranhas mesmo
perché possiamo
quando morente
averlo ancora
dentro
lo sai, vero?
domingo, 29 de novembro de 2020
dentro de casa
envelhecemos
todos os dias
o sol se pondo
longe dos olhos
quando muito
é a luz que
se anuncia
enquanto
passagem
dentro de casa
perdemos o rumo
das ruas vazias
e vemos nas plantas,
que crescem em
seus vasos e ali
envelhecem sem
flores nem frutos,
uma triste comunhão
tudo é seca aqui
e a terra não
nos dá alimento
mesmo adubada
é tudo sobreviver
a custo de quê?
dentro de casa
envelhecemos, não
vemos nascer
ou se pôr o sol
quando muito é
a brisa que anuncia
a mudança, a passagem
do tempo, no qual
envelhecemos
dentro de casa
com o grito e o choro
abafados pelo calor
do vaso recém regado
quente do sol do dia
que outra vez morreu
No esforço de alcançar uma amplitude,
terminava-se com a garganta dolorida
e com algo ainda mais preso nela.
— Giuliana Seerig
para o Geraldo meus pés acostumados ao movimento da areia e das ondas do mar do vento trazendo e levando resquícios pisam de repente os pés ...
-
ora thiago falando de frankenstein entro nos teus lábios observo cautelosa a flor que se abre entre meus dedos toco a carne da tua boca des...