domingo, 22 de março de 2020

every moment happens twice: inside and outside

(lendo Zadie Smith)
sobreponho duas imagens:
a minha mão descansa no teu peito
liso, e a outra mão na minha mão
o teu braço me envolve até a cintura
e a outra mão repousa no colchão
um salto no escuro do tempo
sobreponho dois momentos
eu deitada em você
eu deitada ao seu lado
o sono que me vem escasso
o sono que me vem espaçado
o sonho que me retém
o sonho que antevém
sobreponho dois corpos (atrasados)
o meu em cima do teu
um ao lado do outro
sobreponho meus dedos
que não titubeiam: te tateiam
sobreponho meus cílios
que se curvam com o silêncio
mas não os oponho
como num espelho quebrado:
vejo partes de um, partes de outro
um reflexo em construção
mas talvez seja o cenário que esteja errado
: uma cena nunca se encerra 

sexta-feira, 20 de março de 2020

quando rufam os tambores
dentro dentro das entranhas
abertas apertadas alucinadas
quando rufam os tambores
e a caixa toráxica não sabe
sambar no ritmo da batucada
o corpo todo estremece
como quem não sabia
da chegada do terremoto
ou da lava do vulcão
que começa a se espalhar
pelo ar e pelo chão
o corpo todo se agita
como quem de repente
se vê no meio da bateria
e se lembra de novo
que não sabe mesmo sambar
quando rufam os tambores
e a mulher se deita sentindo
o peso morto do piano de caldas
sobre o peito de vidro
o mar se rebenta
e volta a rebentar-se
na praia vazia deserta
de fim de verão
hoje ainda mais deserta
a batucada acelera

terça-feira, 17 de março de 2020

o estado das coisas

um homem abre a janela
como quem toca o amor a primeira vez
contempla o mar em fúria
que se agita desde o horizonte em fuga
e resolve aqui se quebrar
a água invadindo para além da praia
quem lhe poderá salvar desta lembrança
impregnada na memória como
areia que se torna vidro
o homem abre a janela
e pela segunda vez vê
a janela abrir-se
diante de si
o mar a rebentar-se
com a mesma lenta
violência da primeira
vez, que se repete
abre a janela e vê
simplesmente
que é o que se pode fazer
quando o mar põe-se
a rebentar-se
em você

sábado, 7 de março de 2020

mi piaci da morire

inzuppare é uma palavra quase
técnica, distante léguas
do ato de totiar, potiar: da pucciare.
é como a limitante explicação-definição
de um engenheiro sobre
o que é o empuxo, sobre o que é
enfim sentir-se leve
o movimento de imersão
violento (tuas mãos no meu pescoço-pão)
leve (eu puxo o teu corpo são)
lento (o ritmo sagrado da refeição)

ensopar é a palavra-distância
exata que percorrem os teus
olhos castanhos demasiado
esverdeados (uma folha num lago)
lentamente dos meus joelhos nus
até os meus olhos castanhos cansados.
os teus lábios em curva:
niente, veramente niente;
dizem-me sem nada querer
dizer que as línguas se aproximam
(mesmo sem nunca se tocarem?)

pucciam'
eu pão-macio
o café tu diz: sudicio
água sporca, o café
meu, e todos esses
tão dormidos quanto eu
: nada. sem leite, só água.
a tua língua gritando: por cappuccino
; de manhã cedo
eu café passado

inzupparsi: precisão exata
do que nos deixa As Marcas;
precisão-medida do abismo
entre nossas línguas;
imprecisão do movimento:
afundar-se lento, empuxo violento
ensopar-se num mar sereno.
ensopados — a gente se ensimesmando

domingo, 23 de fevereiro de 2020

non ce ne posse pazzá

no meio do nada
numa cidadezinha
onde quem mora?
um arco romano
faz-nos ver: nada
abre-se como quem?
vê-se só sem nada
para proteger, como
mãe que dá leite
sem ter filhos.
um arco em tijolos
tipicamente romanos
em pleno dia de hoje
como quem sobrevive
mas não se lembra
exatamente o porquê

domingo, 16 de fevereiro de 2020

binario sbaiato

lê um livro
cujo título luto
pra ler
como quem tem livre
a noite já passada e vê
no trem um ponto
de partida (ida)
a linha até aqui seguida como
o que resta da onda do mar
na areia
no trem
como quem tem tempo
pra matar
todo o trajeto feito
longe do mar (volta)
o lápis vermelho (teu)
verde (eu)
o branco dos bancos
rabiscam um país così lontano
a linha do mar
a sua graça
é continuar a desenhar-se
movimentar os grãos do que
um dia foi pedra e concha e vida
e fazer parecer que assim
naturalmente
é que se rabisca uma linha
contínua

terça-feira, 4 de fevereiro de 2020

chuva de verão na cidade

homens empoleirados
como pombas sem voo
em dia de chuva
torrencial
aninhados contra a parede
de concreto frio úmido
que descasca cansado
pela rotina debaixo do sol

domingo, 2 de fevereiro de 2020

(lendo ana martins marques)
i.
longe do mar
há o que se pensar
?
pois se os herois
eles vêm mesmo quase
sempre de algum mar
vêm por entre ondas e
nuvens, por entre raios
de sol e trovoadas
revelam: em si
a natureza enquanto força

um profeta, entretanto
quase sempre vem das montanhas
isto é
um homem surge entre os morros
caminha entre cabras e vacas
esfrega as mãos em arbustos
pelo caminho
vem e traz algo de maravilhoso
algumas palavras, já
pronunciadas antes?
traz uma metáfora
a distância que apaga
e revela
o poder da palavra
absurda
como a dimensão
de uma montanha

ii.
o que pensam as pessoas
que vivem longe do mar
ou
que não conhecem
o mar
onde há a imensidão
o inifito em sua possibilidade
a vastidão jamais conhecida
?

;

no topo da montanha
passeia uma cabra entre
as árvores, e o vento
que anuncia mudança
de tempo
no topo da montanha
os últimos raios do dia
que continua

iii.
mas veja
há ainda
uma pequena ilha
em cujo céu uma revoada
de pássaros alinhados em v
delineiam o traço imperceptível
o desenho inconcebível do infinito
em que montanha e mar revelam-se
contínuos

quarta-feira, 18 de dezembro de 2019

cavo minha própria cova
finco fundo os dedos na terra
úmida
a terra me envolve e me devolve
ao meu estado original
delineia minhas linhas
e marca o começo de tudo
que voltará a ser pó

tive medo de não ser
terrosa ou porosa
o suficiente
e minhas mãos comprovam
a inaptidão do meu corpo
que de tão medroso fez-se
um bloco só
um tijolo
para casa (nenhuma?)

faltou-me o cimento
cal em pó e água
alguma consistência
que me unisse a um todo
que um dia uma bomba ou
uma retroescavadeira
destruiria
tornando-me algum patrimônio
parte de uma memória
algo de histórico

mas quanto mais busquei
sentido nas vibrações que me chegavam
no escuro desse buraco oco
mais fundo cavavam minhas mãos
não notei a lama enlaçando-me os pés
as raízes de outras árvores a arrancar-me
as unhas e os cabelos emaranhados

a tua luz frenética implorando-me
uma nova vibração, uma
transcendência, salvação
que eu
cega e surda
feito uma parade sem quadros
não sabia ainda que existia
e quanto mais a perseguia
essa luz que um dia me irradia
mais argilosa me tornava
um movimento helicoidal
eu funda no fundo e tu,
luz de meus dias, um astro
imparável, um relâmpago
que um dia outra vez ainda
se vier a calhar um destino
fortuito em que há algo de divino
me chacoalharias

mas enquanto te irradias em fogo
grito no buraco fundo dos meus delírios
de maternidade e alegria
as impossibilidades mais evidentes
da nossa agora vida;
das minhas entranhas
o que me resta de útero
sangra e se mistura à lama

preanuncio assim
o fim de uma primavera

(mas as raízes
estas
cada vez mais fundas
firmes, buscam no fundo
flores, frutos: fecundo)

um brilho ainda
a luz íntima
do nosso mundo

e irradiamos
o calor profundo
para que possamos dizer
sonho lúcido:
semente.
muito mais do que raízes.
eu
tu
árvore
fruto folha caule
raízes
e também
todas as sementes

uma cova
nada mais é
que um buraco quente

terça-feira, 10 de dezembro de 2019

sol e sal em escorpião

cientistas afirmam que
dois corpos não ocupam
ao mesmo tempo
o mesmo espaço
 — mas o que sabem os
homens de ciência?
afirmam que há eternamente
uma distância infinitesimal
entre um corpo e outro
desconsideram que o fora
existe por haver o dentro
em simbiose
cohabitam o mesmo espaço
(nossos olhares fugidios)
— que sabem os cientistas?
em meio a tantas afirmações
esquecem-se do negativo
o vazio
que une tempo e espaço
(e permite-me tocar os teus
dedos macios e irrequietos
permite-nos avançar no vácuo
ultrapassando a velocidade da luz
calculada há tantos e tantos
milhares de segundos
permite-nos
uma simples
possibilidade
incalculável
impenetrável em seus mistérios
em suas vias de saída)
uma matriz não sabe
(o que se passa entre o calor
da minha pele e da tua)
não sabe
o que é capaz de transformar
o verão numa nova estação
inomeada e atemporalmente intangível
não sabem os cientistas
o que tocam nossos olhos pela manhã
fugidia
não há plano laboratorial incansável
de observação incessante
que compreenda o espaço
e o tempo que nós
permeamos

domingo, 8 de dezembro de 2019

sol e sonho em sagitário

se eu acordasse todos os dias
com tuas mãos macias
me estendendo pitanguinhas
avermelhadas doces suaves
uma explosão de manhã na minha
boca sonolenta, eu te diria
que em dias assim, como um
domingo de dezembro em céu azul,
eu não sinto falta de café
porque posso me deixar levar
pela preguiça do dia escorrido
a brisa do mar e as formigas calmas
que passam pelos nossos pés
a espiar nossa vontade de viver;
porque posso sentir a grama se esquentar
com o calor dos nossos corpos estendidos
como pontos desimportantemente infinitos.
se eu acordasse todos os dias pra te ver
passar os olhos pela natureza que te contempla
eu não sentiria falta de dizer
o que o tempo faz comigo
porque ali, naquela manhã verde dourado,
a tua pele bronzeando o sol antigo,
a ilusão cotidiana não seria nem mesmo delírio
e o onírico seria o nosso dia a dia
com espaço para criar nossos filhos
que reluziriam teu olhar acobreado
e as mãozinhas avermelhadas
de frutas, adoçariam os jeitos de ver:
como é bom viver
e acordar contigo aos domingos

para o Geraldo meus pés acostumados ao movimento da areia e das ondas do mar do vento trazendo e levando resquícios pisam de repente os pés ...