nem bótom
nem batón
validam meu corpo
(o meu corpo)
na rua
ou fazem ouvir minha voz
ecoando na rua
ou amarram minha mão à tua
na rua gritando alto;
nem bótom nem batón
me obrigam a ficar em casa
calada, recatada
glitter só do fogo dos meus olhos
e é com meus pés que me levanto
e caminho
e atravesso a rua
e espero o momento em que o sinal
ainda fechado
me dá uma brecha
e com meu corpo
(o meu corpo simplesmente)
eu avanço
e é meu corpo que pula
e é a minha garganta que em chamas
grita bem alto
não sou pacifista
quero jogar bola com cabeça de fascista
e é na minha cabeça, de cabelos soltos
as serpentes enlouquecidas
o suor escorrendo pelas têmporas,
onde o jogo começa
e eu grito gol;
nem batón nem bóton
maquiam, decoram, distraem
meus olhos do caminho:
eu piso com força
o meu corpo inteiro engajado
como se minha força sozinha
pudesse soltar as placas tectônicas
e avanço, mesmo que devagarinho; é por élle, que vive, hoje e sempre,
que é semente,
que eu me levanto e caminho e atravesso e grito e pulo e solto as serpentes e suo
todo o meu corpo
na rua
que é minha
sexta-feira, 8 de março de 2019
segunda-feira, 28 de janeiro de 2019
há monstros que, da profundeza de suas arrogâncias e de suas soberbas, acabam por nos ensinar algo. um dia ouvi de um monstro - que, como todo monstro e todo deus, fora inventado por algum desavisado do perigo que é lançá-los na realidade dos homens, que precisarão ser salvos pelos barcos não-afundados das crianças e mulheres, das anas e das cristinas, de todas as clarices, e de uma infinidade de raios luminosos a quem damos nomes impronunciáveis como edna ou adélia, e submetemos certas elsas e elenas ou natalias e até mesmo elviras, quem acreditaria?, à existência nessa realidade nossa - ouvi desse monstro - que resolveu falar comigo em línguas, outra invenção nossa; escolhemos uma maneira complexa e absurda de traduzir pensamentos intraduzíveis, que existem por invenção nossa também, e que existem independentes em sua realidade imaterial e desprovida de complexidade pois desprovida de protótipos de tradução; línguas que por acaso eu compreendia a música - ouvi dele - que me olhava sem me atravessar, tentando me compreender em toda minha materialidade impossível e absurda, literalmente inacreditável e inconcebível; me olhava também me atravessando, exibindo toda sua super-imaterialidade complexa demais para meus olhos e meus parcos mecanismos de tradução - ouvi - buscando colher cada som como se fosse o bago de uma uva, que intento esmagar com a ponta de meus pés e transformar em vinho, um vinho que nunca fora água; colher cada nota como se fosse um pequeno glóbulo de amora estourando de madura e que ainda não fora encontrada por uma larva ou um passarinho, já que estão todos mortos na realidade desértica acinzentada que nos cerca nesse momento; pássaros e larvas que bicariam meus olhos e caminhariam sobre minha pele na realidade luminosa da qual eu não faço parte - ouvi que julgamos nossos deuses não por sua matemática, mas por sua poesia. (e um anjo safado surge atrás da minha orelha e sussura, para quem quisesse ouvir: e quem é que sabe a diferença?)
segunda-feira, 14 de janeiro de 2019
há décadas crio um cacto
delicado
esperando que me dê flor
e um pouco de cor
troco-o de vaso
admiro seus espinhos
e lhe rego com carinho
esperando o dia em que se despetalará
numa sinfonia de Bach
crio-o há décadas
entretanto
o silêncio
nos permeia há anos
olho seus espinhos
com tristeza:
ali não há beleza
é um desgosto
não há beleza
em formato tão asqueroso;
passo semanas sem lhe olhar
só para voltar e encontrar
cada dia mais espinhos
lhe nego devagarinho
me esqueço de todo carinho
*
*
*
te esqueces:
o que me faz cacto
não é a flor, mas o espinho
volta e meia te sentas à janela
e esperas por uma brisa velha
que nos sacuda
é quando penso: deus nos acuda
então vejo que teus dedos
sorrateiros
começam a troca de vaso
delicado
esperando que me dê flor
e um pouco de cor
troco-o de vaso
admiro seus espinhos
e lhe rego com carinho
esperando o dia em que se despetalará
numa sinfonia de Bach
crio-o há décadas
entretanto
o silêncio
nos permeia há anos
olho seus espinhos
com tristeza:
ali não há beleza
é um desgosto
não há beleza
em formato tão asqueroso;
passo semanas sem lhe olhar
só para voltar e encontrar
cada dia mais espinhos
lhe nego devagarinho
me esqueço de todo carinho
*
*
*
te esqueces:
o que me faz cacto
não é a flor, mas o espinho
volta e meia te sentas à janela
e esperas por uma brisa velha
que nos sacuda
é quando penso: deus nos acuda
então vejo que teus dedos
sorrateiros
começam a troca de vaso
quinta-feira, 3 de janeiro de 2019
poesia
se toca uma corda, uma tecla,
ou se assopra um saxofone
a música m'embala
faz flutuar
e meu corpo
vira marionete
enquanto a palavra
pesa
e faz do meu corpo
verbete
ê
me reduz a um esquema
um cacoete
ê
eu que sou rima
quando me estimas;
verso livre
tom e meio tom
quando me deixas passarinha;
eu que sou arvoredo
peixes e desejo;
eu que quando ouço um disco
viro vapor
e onda magnética
que viaja no torpor
rítmico de uma jovem frenética
e na suavidade da cor
de uma flor de hibisco
eu
que não tenho fim
e vou
eu
que do carnaval sou confete
e das marchinhas sou
todas as vogais abertas
e semi-abertas
e sou parte do que se erra
eu
que não descrevo nem solfejo
a menos que me queiras palavra
ou se assopra um saxofone
a música m'embala
faz flutuar
e meu corpo
vira marionete
enquanto a palavra
pesa
e faz do meu corpo
verbete
ê
latim corpus, -oris
s. m.
[figurado]
[anatomia]
[expressões idiomáticas]
me reduz a um esquema
um cacoete
ê
eu que sou rima
quando me estimas;
verso livre
tom e meio tom
quando me deixas passarinha;
eu que sou arvoredo
peixes e desejo;
eu que quando ouço um disco
viro vapor
e onda magnética
que viaja no torpor
rítmico de uma jovem frenética
e na suavidade da cor
de uma flor de hibisco
eu
que não tenho fim
e vou
eu
que do carnaval sou confete
e das marchinhas sou
todas as vogais abertas
e semi-abertas
e sou parte do que se erra
eu
que não descrevo nem solfejo
a menos que me queiras palavra
latim parabola, -ae
s. f.
[...]
[...]
eu
que não me encerro
que não me encerro
em vogais fechadas
que sou orquestra completa
que não obedeço
sou sinfonia e desarmonia
e sou também silêncio eu
que sou acesso
que te cruzo num ponto do infinito
que é o que
é
que sou orquestra completa
que não obedeço
sou sinfonia e desarmonia
e sou também silêncio eu
que sou acesso
que te cruzo num ponto do infinito
que é o que
é
domingo, 16 de dezembro de 2018
vilania
![]() |
| A sereia de Romas Vilčiauskas, à beira do rio Vilnia |
nem se sentar à beira do rio
deixando a vida passar
com a correnteza da água
que quanto mais gelada
mais faz as escamas brilharem
quanto mais turva
mais as faz trocarem de cor
quanto mais torrencial
mais as faz parecerem diamante
no fundo de um rio africano;
esta mulher não pode
nem se sentar à beira do rio
deixando a vida passar
com a correnteza da água
pensando nos peixes que há
em alto mar
em águas
mais geladas e turbulentas
mais turvas e caudalosas
que as que lavam seus pés
em águas
mais azuis que os olhos de deus
mais negras que a pele de deus,
se deixando levar por delírios
de peixes escamosos como eu
de peixes e águas-vivas com cores
diferentes das minhas
me deixando embalar
os cabelos pelo vento suave de setembro
com cheiro de sal e verão
com gosto de sangue fresco e trovão
me deixando lavar
pela chuva que é mais torrencial
que este rio que banha meus pés;
a mulher não pode
nem se sentar à beira do rio
deixando escapar um suspiro insuspeito
cantarolando o som secreto das sereias
sussurando travessuras
soltando o riso
se sentindo feito um passarinho
...que vem alguém
e me transforma em pedra --
a mulher que via o rio
e a vida passarem
tem seus cabelos petrificados
suas escamas transformadas
em pedra opaca e sem cor
sua magreza e seus peitos
transformados em lenda
de alguma sereia
seu canto
no encanto
de alguma sereia
o suspiro
no silêncio
de outra sereia
pelas mãos de um homem
que a quer esculpir
com cabelos de serpente
e olhos de angústia
se esquecendo que também ele é peixe
quarta-feira, 5 de dezembro de 2018
*
expõe tua pele e põe
pra cima um punho
preto, pardo --
cor nenhuma
põe pra cima
um punho
e basta
expõe tua pele
teus braços e
pernas nuas
nas ruas
feito fosse estátua
feito fosse uma força
incontida e feminina.
expõe -- dá um grito,
um urro, um berro,
um murro, um assovio,
um canto materno, feminino...
abre as portas do teu quarto
e deixa o vento entrar, levantar poeira
dar espaço para os espíritos que batem à soleira
e não se cansam de esperar à porta, sorrateiros.
escancara as janelas com força e cheia de riso
(é quase um rito)
arregaça o peito,
põe os braços pra cima,
o punho firme,
(nenhuma
desgraça é maior
que não expor a
própria pele
não
se deixar tocar
pelo vento
e à brisa
e à maresia
se deixar corroer)
empunha o punho:
cheio de graça
pra cima um punho
preto, pardo --
cor nenhuma
põe pra cima
um punho
e basta
expõe tua pele
teus braços e
pernas nuas
nas ruas
feito fosse estátua
feito fosse uma força
incontida e feminina.
expõe -- dá um grito,
um urro, um berro,
um murro, um assovio,
um canto materno, feminino...
abre as portas do teu quarto
e deixa o vento entrar, levantar poeira
dar espaço para os espíritos que batem à soleira
e não se cansam de esperar à porta, sorrateiros.
escancara as janelas com força e cheia de riso
(é quase um rito)
arregaça o peito,
põe os braços pra cima,
o punho firme,
(nenhuma
desgraça é maior
que não expor a
própria pele
não
se deixar tocar
pelo vento
e à brisa
e à maresia
se deixar corroer)
empunha o punho:
cheio de graça
terça-feira, 6 de novembro de 2018
é significante!, realmente significativo - mas qual o significado?
não se produzem mais dicionários
não há tempo hábil
(a velocidade da modernidade)
para fechar o ralo
e puxar o filtro
do significado
não fica nada
além do signo
da palavra falada
- as vozes desfocadas -
não há razão para essa produção
páginas em branco
sites 404 desatualizados
a matrix não calcula a tempo
(a velocidade das máquinas)
a mudança para nossos textos
que não escrevemos mais
(somos máquinas)
a linguagem do futuro é mesmo essa?
binária
zero um zero
zero
0
1
?
não há tempo hábil
(a velocidade da modernidade)
para fechar o ralo
e puxar o filtro
do significado
não fica nada
além do signo
da palavra falada
- as vozes desfocadas -
não há razão para essa produção
páginas em branco
sites 404 desatualizados
a matrix não calcula a tempo
(a velocidade das máquinas)
a mudança para nossos textos
que não escrevemos mais
(somos máquinas)
a linguagem do futuro é mesmo essa?
binária
zero um zero
zero
0
1
?
terça-feira, 9 de outubro de 2018
perseu me persegue pelas ruas
quer arrancar a minha cabeça e
despedaçar meu corpo feito fosse
uma placa; quer arrancar minha língua
e furar meus olhos, jogar meus restos
numa vala.
perseu me persegue pelas ruas
quer segurar bem alto minha cabeça
feito fosse troféu: prova viva da perversidade.
me pesca em cada esquina
(o anzol tentando arrancar a minha língua)
me procura e convence
meu pai, meu irmão, minha mãe
e até minha tia falecida
de que minha vida
minha cabeça
meu corpo
são dele
perseu
me persegue pelas ruas
quer enfiar a língua na minha boca
e alcançar as minhas entranhas
gritando que até minha vida
depende das mãos dele
quer enfiar mesmo a mão e me atravessar
segurando bem alto minha cabeça
feito fosse troféu da sua verdade
perseu me persegue pelas ruas
quer arrancar a minha cabeça, mas
(não sabe?)
aí estão minhas serpentes
que vão lhe arrancar a mão à força
e fazer dele história da perversidade verdadeira
memento mori das tempestades vencidas
me persegue, mas encontra apenas meu olhar
de pedra e fúria
quer arrancar a minha cabeça e
despedaçar meu corpo feito fosse
uma placa; quer arrancar minha língua
e furar meus olhos, jogar meus restos
numa vala.
perseu me persegue pelas ruas
quer segurar bem alto minha cabeça
feito fosse troféu: prova viva da perversidade.
me pesca em cada esquina
(o anzol tentando arrancar a minha língua)
me procura e convence
meu pai, meu irmão, minha mãe
e até minha tia falecida
de que minha vida
minha cabeça
meu corpo
são dele
perseu
me persegue pelas ruas
quer enfiar a língua na minha boca
e alcançar as minhas entranhas
gritando que até minha vida
depende das mãos dele
quer enfiar mesmo a mão e me atravessar
segurando bem alto minha cabeça
feito fosse troféu da sua verdade
perseu me persegue pelas ruas
quer arrancar a minha cabeça, mas
(não sabe?)
aí estão minhas serpentes
que vão lhe arrancar a mão à força
e fazer dele história da perversidade verdadeira
memento mori das tempestades vencidas
me persegue, mas encontra apenas meu olhar
de pedra e fúria
sábado, 29 de setembro de 2018
Corpo estelar, de Fabio Pusterla
| Corpo stellare de Fabio Pusterla |
Me segues com um pensamento, és um pensamento
que não devo nem mesmo pensar, como um arrepio
me chamuscas suave a pele, moves os olhos
para um ponto claro de luz. És uma lembrança
perdida e luminosa, és o meu sonho
sem sonho e sem lembranças, a porta que se fecha
e se abre sobre a corrente de um rio impetuoso. És uma coisa
que nenhuma palavra pode dizer e que em cada palavra
ressoa como o eco de um lento suspiro, és o meu vento
de folhas e primaveras, a voz que chama
de um lugar que não sei e reconheço que é meu.
És o uivo de um lobo, a voz do cervo
vivo e mortalmente ferido. O meu corpo estelar.
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literatura,
poesia,
tradução
sexta-feira, 7 de setembro de 2018
da medusa
i. o riso
ressoa uma música antiga
: uma flecha que se separa do arco
e atravessa o mar de ítaca
conversas com esta, a mulher
que te olha nos olhos
e te faz perceber que o monstro
é a tua pintura barroca
e te faz perceber que o monstro
é a tua música eletrônica
que é; enfim, que sou
ii. o canto
conversas com esta mulher
que te pega pelas mãos
e te faz sentir o monstro
dentro do teu corpo
corposo
em cada curva
escondida, o monstro
corposo
conversas com esta mulher
que te faz ouvir
o canto das sereias
do fundo do mar
da infância
ecoam
go all the way
don't punish yourself
don't be a secret
be a monster
não para aliviar a tensão
não para polir os cantos
laminados dos teus olhares
e da tua voz e dos teus dedos
segredos
go all the way
porque quem fez
este caminho
foram outras antes de ti
e agora deves percorrer
a trilha das flores macias
inquebrantáveis
monstruosas e ainda mais corposas
que tu
ouves o grito
sereno que continua
iii. a transformação
perdura o riso das bruxas
enquanto te debruças
sobre novas pinturas
mulher
escreve
escreva
mulher
e não esqueça
o monstro escondido no lago
é a criatura mitológica:
um fascínio
a ser explorado
abro as asas e deixo vênus me abraçar
ressoa uma música antiga
: uma flecha que se separa do arco
e atravessa o mar de ítaca
conversas com esta, a mulher
que te olha nos olhos
e te faz perceber que o monstro
é a tua pintura barroca
e te faz perceber que o monstro
é a tua música eletrônica
que é; enfim, que sou
ii. o canto
conversas com esta mulher
que te pega pelas mãos
e te faz sentir o monstro
dentro do teu corpo
corposo
em cada curva
escondida, o monstro
corposo
conversas com esta mulher
que te faz ouvir
o canto das sereias
do fundo do mar
da infância
ecoam
go all the way
don't punish yourself
don't be a secret
be a monster
não para aliviar a tensão
não para polir os cantos
laminados dos teus olhares
e da tua voz e dos teus dedos
segredos
go all the way
porque quem fez
este caminho
foram outras antes de ti
e agora deves percorrer
a trilha das flores macias
inquebrantáveis
monstruosas e ainda mais corposas
que tu
ouves o grito
sereno que continua
iii. a transformação
perdura o riso das bruxas
enquanto te debruças
sobre novas pinturas
mulher
escreve
escreva
mulher
e não esqueça
o monstro escondido no lago
é a criatura mitológica:
um fascínio
a ser explorado
abro as asas e deixo vênus me abraçar
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para o Geraldo meus pés acostumados ao movimento da areia e das ondas do mar do vento trazendo e levando resquícios pisam de repente os pés ...
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ora thiago falando de frankenstein entro nos teus lábios observo cautelosa a flor que se abre entre meus dedos toco a carne da tua boca des...
