quinta-feira, 23 de maio de 2024

uma fome que não cabia em mim
a tudo que me oferecias dizia sim
cada pedaço agarrava com as mãos
sujas de terra e pele as unhas
temperavam o mel que de ti escorria
te comia com os dentes e a língua
percorria a mesa atrás de migalhinhas
algo de ti que me alimentaria ainda
mais um pedaço um gole um punhado
um punhado um punhado um punhal
fui te fatiando inteira cega não percebi
tudo o que eras cabia perfeitamente aqui
na palma lambuzada das minhas mãos
: sobrava de ti e ainda faltava em mim

segunda-feira, 20 de maio de 2024

as imagens se repetem
infinitas preenchem
o longo vazio

da tela

quinta-feira, 9 de maio de 2024

das conchas

todo ato de fala verdadeiro
é um gesto de coragem
e nada mais forte
do que ser 

                                                     vulnerável

nas praias do eu
as conchas que se abrem
prontas para o sal e a areia
das tuas mãos

sábado, 4 de maio de 2024

pra você, que não mais me lê

o tempo é uma armadilha do espaço
uma caixa de papelão apoiada num galho
no meio de um bosque da infância
à espera de um pássaro desavisado
que passa como quem não quer nada
e se prende ali dentro
daquele passado

então, voa

na academia

a frieza da palavra me toma como uma lâmina de ferro gelado parece vidro porque é frágil mas me permeia como as árvores o vento