cavo minha própria cova
finco fundo os dedos na terra
úmida
a terra me envolve e me devolve
ao meu estado original
delineia minhas linhas
e marca o começo de tudo
que voltará a ser pó
tive medo de não ser
terrosa ou porosa
o suficiente
e minhas mãos comprovam
a inaptidão do meu corpo
que de tão medroso fez-se
um bloco só
um tijolo
para casa (nenhuma?)
faltou-me o cimento
cal em pó e água
alguma consistência
que me unisse a um todo
que um dia uma bomba ou
uma retroescavadeira
destruiria
tornando-me algum patrimônio
parte de uma memória
algo de histórico
mas quanto mais busquei
sentido nas vibrações que me chegavam
no escuro desse buraco oco
mais fundo cavavam minhas mãos
não notei a lama enlaçando-me os pés
as raízes de outras árvores a arrancar-me
as unhas e os cabelos emaranhados
a tua luz frenética implorando-me
uma nova vibração, uma
transcendência, salvação
que eu
cega e surda
feito uma parade sem quadros
não sabia ainda que existia
e quanto mais a perseguia
essa luz que um dia me irradia
mais argilosa me tornava
um movimento helicoidal
eu funda no fundo e tu,
luz de meus dias, um astro
imparável, um relâmpago
que um dia outra vez ainda
se vier a calhar um destino
fortuito em que há algo de divino
me chacoalharias
mas enquanto te irradias em fogo
grito no buraco fundo dos meus delírios
de maternidade e alegria
as impossibilidades mais evidentes
da nossa agora vida;
das minhas entranhas
o que me resta de útero
sangra e se mistura à lama
preanuncio assim
o fim de uma primavera
(mas as raízes
estas
cada vez mais fundas
firmes, buscam no fundo
flores, frutos: fecundo)
um brilho ainda
a luz íntima
do nosso mundo
e irradiamos
o calor profundo
para que possamos dizer
sonho lúcido:
semente.
muito mais do que raízes.
eu
tu
árvore
fruto folha caule
raízes
e também
todas as sementes
uma cova
nada mais é
que um buraco quente
quarta-feira, 18 de dezembro de 2019
terça-feira, 10 de dezembro de 2019
sol e sal em escorpião
cientistas afirmam que
dois corpos não ocupam
ao mesmo tempo
o mesmo espaço
— mas o que sabem os
homens de ciência?
afirmam que há eternamente
uma distância infinitesimal
entre um corpo e outro
desconsideram que o fora
existe por haver o dentro
em simbiose
cohabitam o mesmo espaço
(nossos olhares fugidios)
— que sabem os cientistas?
em meio a tantas afirmações
esquecem-se do negativo
o vazio
que une tempo e espaço
(e permite-me tocar os teus
dedos macios e irrequietos
permite-nos avançar no vácuo
ultrapassando a velocidade da luz
calculada há tantos e tantos
milhares de segundos
permite-nos
uma simples
possibilidade
incalculável
impenetrável em seus mistérios
em suas vias de saída)
uma matriz não sabe
(o que se passa entre o calor
da minha pele e da tua)
não sabe
o que é capaz de transformar
o verão numa nova estação
inomeada e atemporalmente intangível
não sabem os cientistas
o que tocam nossos olhos pela manhã
fugidia
não há plano laboratorial incansável
de observação incessante
que compreenda o espaço
e o tempo que nós
permeamos
dois corpos não ocupam
ao mesmo tempo
o mesmo espaço
— mas o que sabem os
homens de ciência?
afirmam que há eternamente
uma distância infinitesimal
entre um corpo e outro
desconsideram que o fora
existe por haver o dentro
em simbiose
cohabitam o mesmo espaço
(nossos olhares fugidios)
— que sabem os cientistas?
em meio a tantas afirmações
esquecem-se do negativo
o vazio
que une tempo e espaço
(e permite-me tocar os teus
dedos macios e irrequietos
permite-nos avançar no vácuo
ultrapassando a velocidade da luz
calculada há tantos e tantos
milhares de segundos
permite-nos
uma simples
possibilidade
incalculável
impenetrável em seus mistérios
em suas vias de saída)
uma matriz não sabe
(o que se passa entre o calor
da minha pele e da tua)
não sabe
o que é capaz de transformar
o verão numa nova estação
inomeada e atemporalmente intangível
não sabem os cientistas
o que tocam nossos olhos pela manhã
fugidia
não há plano laboratorial incansável
de observação incessante
que compreenda o espaço
e o tempo que nós
permeamos
domingo, 8 de dezembro de 2019
sol e sonho em sagitário
se eu acordasse todos os dias
com tuas mãos macias
me estendendo pitanguinhas
avermelhadas doces suaves
uma explosão de manhã na minha
boca sonolenta, eu te diria
que em dias assim, como um
domingo de dezembro em céu azul,
eu não sinto falta de café
porque posso me deixar levar
pela preguiça do dia escorrido
a brisa do mar e as formigas calmas
que passam pelos nossos pés
a espiar nossa vontade de viver;
porque posso sentir a grama se esquentar
com o calor dos nossos corpos estendidos
como pontos desimportantemente infinitos.
se eu acordasse todos os dias pra te ver
passar os olhos pela natureza que te contempla
eu não sentiria falta de dizer
o que o tempo faz comigo
porque ali, naquela manhã verde dourado,
a tua pele bronzeando o sol antigo,
a ilusão cotidiana não seria nem mesmo delírio
e o onírico seria o nosso dia a dia
com espaço para criar nossos filhos
que reluziriam teu olhar acobreado
e as mãozinhas avermelhadas
de frutas, adoçariam os jeitos de ver:
como é bom viver
e acordar contigo aos domingos
com tuas mãos macias
me estendendo pitanguinhas
avermelhadas doces suaves
uma explosão de manhã na minha
boca sonolenta, eu te diria
que em dias assim, como um
domingo de dezembro em céu azul,
eu não sinto falta de café
porque posso me deixar levar
pela preguiça do dia escorrido
a brisa do mar e as formigas calmas
que passam pelos nossos pés
a espiar nossa vontade de viver;
porque posso sentir a grama se esquentar
com o calor dos nossos corpos estendidos
como pontos desimportantemente infinitos.
se eu acordasse todos os dias pra te ver
passar os olhos pela natureza que te contempla
eu não sentiria falta de dizer
o que o tempo faz comigo
porque ali, naquela manhã verde dourado,
a tua pele bronzeando o sol antigo,
a ilusão cotidiana não seria nem mesmo delírio
e o onírico seria o nosso dia a dia
com espaço para criar nossos filhos
que reluziriam teu olhar acobreado
e as mãozinhas avermelhadas
de frutas, adoçariam os jeitos de ver:
como é bom viver
e acordar contigo aos domingos
segunda-feira, 28 de outubro de 2019
(enquanto você dormia; ou manhã de primavera)
adorado
coberto de ouro cor
da tua boca ao acordar
e dos teus olhos tímidos
ao levantar-me seguem-me
feito eu fosse estátua de gesso
adorado coberto de ouro úmido
teu couro macio a que chamas
de pele (a minha em chamas)
entre as divindades não te reconheço
és como o magma que permite-se
um vislumbre momentâneo quando
da erupção - magneticamente intangível
adorado coberto de ouro acobreado, cor
enfim a dos teus lábios quando
roçam os meus cabelos sonolentos
pela lembrança dos teus dedos
adorado coberto de ouro
é como te vejo quando
deitado em meus sonhos
te ouso tocar os pés
te ouço tocar os sinos
de mármore fundido em fogo
de paixão e fúria (a nossa filha)
adorada da cor da minha
peregrinação incessante
pelo onírico espaço entre teus joelhos
recém amanhecidos de vida:
epítome da nossa preguiça
amálgama de pérolas incrustadas
de sal e alga marinha
de fervor dourado
dos nossos olhos (a ira)
acobreados
coberto de ouro cor
da tua boca ao acordar
e dos teus olhos tímidos
ao levantar-me seguem-me
feito eu fosse estátua de gesso
adorado coberto de ouro úmido
teu couro macio a que chamas
de pele (a minha em chamas)
entre as divindades não te reconheço
és como o magma que permite-se
um vislumbre momentâneo quando
da erupção - magneticamente intangível
adorado coberto de ouro acobreado, cor
enfim a dos teus lábios quando
roçam os meus cabelos sonolentos
pela lembrança dos teus dedos
adorado coberto de ouro
é como te vejo quando
deitado em meus sonhos
te ouso tocar os pés
te ouço tocar os sinos
de mármore fundido em fogo
de paixão e fúria (a nossa filha)
adorada da cor da minha
peregrinação incessante
pelo onírico espaço entre teus joelhos
recém amanhecidos de vida:
epítome da nossa preguiça
amálgama de pérolas incrustadas
de sal e alga marinha
de fervor dourado
dos nossos olhos (a ira)
acobreados
sexta-feira, 25 de outubro de 2019
perseu me persegue pelas ruas
cheias de putas, me escarra a cara
me persegue e quer arrancar
a minha língua
mastigar a minha língua
e fazer uma colagem linguística
da sua na minha
me persegue
e me apaga
mas ainda me paga
um dia
ele me paga
vou correr com a cara escarrada
e responder aos berros
o quão escabroso é
um sujeito desse jeito
assujeitado assujeitando-
me viro toda empedrada e lhe atiro
uma serpente ao peito
que não lhe acerta
caçada implacável
minhas sombras alcançam seus pés pequenos
e ele me olha pequenino e perverso
um puto dum pobre coitado
e eu, pobre e muitas vezes coitada,
ou cogitada para coito,
só conheci açoito
e minhas garras afiadas
minha voz desafinada
é um monstro contra outro?
cheias de putas, me escarra a cara
me persegue e quer arrancar
a minha língua
mastigar a minha língua
e fazer uma colagem linguística
da sua na minha
me persegue
e me apaga
mas ainda me paga
um dia
ele me paga
vou correr com a cara escarrada
e responder aos berros
o quão escabroso é
um sujeito desse jeito
assujeitado assujeitando-
me viro toda empedrada e lhe atiro
uma serpente ao peito
que não lhe acerta
caçada implacável
minhas sombras alcançam seus pés pequenos
e ele me olha pequenino e perverso
um puto dum pobre coitado
e eu, pobre e muitas vezes coitada,
ou cogitada para coito,
só conheci açoito
e minhas garras afiadas
minha voz desafinada
é um monstro contra outro?
segunda-feira, 30 de setembro de 2019
4D
pertenço agora ao tempo
e este meu pobre corpo
pueril empoeirado coberto
de pólvora
retorna ao seu estado
originário
me dissolvo no rio
invisível do tempo
e não altero sua cor nem
sua densidade, nele me penetro
e ali me pertenço
um invisível círculo perfeito
e este meu pobre corpo
pueril empoeirado coberto
de pólvora
retorna ao seu estado
originário
me dissolvo no rio
invisível do tempo
e não altero sua cor nem
sua densidade, nele me penetro
e ali me pertenço
um invisível círculo perfeito
quinta-feira, 26 de setembro de 2019
entulhada de coisa
minha sala parece cada
vez menor
nas estantes encontro
meus muitos livros mas as
páginas
todas
em
branco
para minha surpresa e decepção
pego uma de minhas muitas
e coloridas canetas e decido
eu mesma
escrever um romance
uma ideia mal me brilha as veias
da porta me
gritam amélia
nos cadernos, não!
já falei!
a dona da papelaria?
sempre venho aqui e é
essa gritaria
sempre repreendendo
o barraco faz a freguesia
eu acho?
grito como num aviso
faltam livros nessa tua biblioteca
os jovens são uns...
vou te contar
essa minha sala está
cada
vez
vez menor
nas estantes encontro
meus muitos livros mas as
páginas
todas
em
branco
para minha surpresa e decepção
pego uma de minhas muitas
e coloridas canetas e decido
eu mesma
escrever um romance
uma ideia mal me brilha as veias
da porta me
gritam amélia
nos cadernos, não!
já falei!
a dona da papelaria?
sempre venho aqui e é
essa gritaria
sempre repreendendo
o barraco faz a freguesia
eu acho?
grito como num aviso
faltam livros nessa tua biblioteca
os jovens são uns...
vou te contar
essa minha sala está
cada
vez
deus
um homem caminha pelas nuvens
seus calcanhares rachados suas unhas
encravadas crava seus dedos na superfície lábil
mantém-se firme ereto
anuviados os olhos contemplam a
vastidão
considera a necessidade real
de sua existência
um passo em falso percebe
descobre
: o céu imenso
seus calcanhares rachados suas unhas
encravadas crava seus dedos na superfície lábil
mantém-se firme ereto
anuviados os olhos contemplam a
vastidão
considera a necessidade real
de sua existência
um passo em falso percebe
descobre
: o céu imenso
lendo benjamin
vai ver é por isso que não se fazem facas de vidro
que é tão liso e duro e sóbrio e frio e nada fixa
e não tem nenhuma aura
e uma faca é
ao contrário
rígida e pungente e ensanguentante
ela é forjada no calor fundente do fogo
enquanto músculos potentes se aquecem sobre ela
e uma faca não pode
se estilhaçar e morrer no primeiro ataque
uma faca tem que
durar
para cortar e sangrar e atacar
porque uma faca é uma ameaça
é uma peixeira pensa no buxo
é um corte certeiro
>e falta algo aqui<
e um vidro é
o inimigo do mistério
uma faca é um objeto em construção
como um poema
e sempre deixa um rastro
de sangue de suor de vida
que é tão liso e duro e sóbrio e frio e nada fixa
e não tem nenhuma aura
e uma faca é
ao contrário
rígida e pungente e ensanguentante
ela é forjada no calor fundente do fogo
enquanto músculos potentes se aquecem sobre ela
e uma faca não pode
se estilhaçar e morrer no primeiro ataque
uma faca tem que
durar
para cortar e sangrar e atacar
porque uma faca é uma ameaça
é uma peixeira pensa no buxo
é um corte certeiro
>e falta algo aqui<
e um vidro é
o inimigo do mistério
uma faca é um objeto em construção
como um poema
e sempre deixa um rastro
de sangue de suor de vida
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para o Geraldo meus pés acostumados ao movimento da areia e das ondas do mar do vento trazendo e levando resquícios pisam de repente os pés ...
-
ora thiago falando de frankenstein entro nos teus lábios observo cautelosa a flor que se abre entre meus dedos toco a carne da tua boca des...