sexta-feira, 1 de agosto de 2025

agora que não tenho filhos
pois nunca os quis ter
me pergunto quem irá
lembrar
do meu pai
lembrado (eu queria)
por sua
alegria (também)
por seus
defeitos
(e mais) pela
tentativa
de ser o que não foram
para ele
por não ter
me esbofeteado
por quererem
lembrá-lo
eu não me lembro
como era meu pai
com a minha avó
como foram os onze anos
com sua mãe
que eu não conheci

a memória está sempre por um triz

agora que não tenhos filhos
pois nunca os tive
me pergunto quem irá
lembrar
da minha avó
lembrada (me dizem)
por sua
beleza
por sua
doçura
epilética
morreu espancada
pelo meu avô
que também
esbofeteou
minhas tias
que fazem questão
de não lembrar
do próprio avô
do meu
eu lembro
os modos de dizer
a risada
e que morreu
dançando feliz

a memória é um risco de giz 

terça-feira, 29 de julho de 2025

se chamo meu filho
de luiz
de antonio 
de delelmo 
de quem 
é a memória 
que carrega? 

domingo, 20 de julho de 2025

presta atenção querida

de cada amor perdido
herdarás apenas as feridas
que lamberás felina

de cada casa em ruína
te restará uma única parede
que saltarás lupina

disperde a atenção ferina

sábado, 12 de julho de 2025

na tua língua o
ácido da minha
ansiedade te
corrói as
gengivas te
escava a p
ele macia
e vermelh
a de sang
ue vivo
e quando
falas as fr
ases se des
peda çam
vindo ao en
contro da
minha ang
ústia do fel
dos dias p
erdidos
sem ti
os dia
s que a
inda es
tão por
vir mas co
m calma e d
oçura me
lambes a
s feridas

sexta-feira, 4 de julho de 2025

é pela manhã
que descubro-lembro
os olhos cobertos
pela maquiagem de ontem
então lavo o rosto
esfrego os olhos
a água gelada
nos dedos acordando
circulam a pele
e revelam-desvelam
a mulher de ontem
na senhora de manhã

segunda-feira, 23 de junho de 2025

nunca vi uma mulher chorar

vi mulheres lavarem louças
passarem roupa
com amaciante
ajudei a encher baldes
passar no chão 
o pano limpo
um pouco de desinfetante
na sala
no quarto
no corredor
nos banheiros úmidos
dos banhos tomados
a mão
alisando a toalha da mesa 
com migalhas de pão
o ouvido atento
os olhos distantes
algumas delas sorriem
por empatia
e outras abraçam 
homens e crianças
de narizes entupidos
sem palavras
aos prantos

nunca vi para onde vão os olhos
secos dessas mulheres
quando ignoram o choro
e viram muralhas

segunda-feira, 9 de junho de 2025

minhas mãos naquele momento
pareciam feitas de vidro quente
frágeis e aquecidas tentavam
segurar o sangue dentro de mim
ou as lágrimas ou esse mel
que a todo momento parecia 
buscar um caminho-saída

não sentia meu corpo explodir
mas sobretudo como se eu precisasse
ser maior maior maior maior maior
como se em mim faltasse espaço
mas não por erro matemático
do que há dentro mas 
sim como se necessário fosse
que meu corpo fosse plástico
em vez de vidro

como se pudesse esticar mais


do que 'rebentar

sábado, 31 de maio de 2025

queria conhecer meu pai menino
desde que sua mãe falecera 
quando eu ainda não era nascida
que me pergunto como ele era
aquele menino de olhos doces
e curiosos crescido em meio a tantos 
outros filhos menos doces e muito menos
curiosos todos tão endurecidos pela perda
queria conhecê-los todos e vê-los brincar 
no palheiro e fugir do dono rindo a plenos pulmões
queria tê-los visto crescer ouvindo a voz
da minha avó e sentir o cheiro de seus cabelos
queria me deitar em seu colo e na barriga uma menina
que eu ajudaria a nomear
nomearia tudo o que ela tocasse
me sentaria em volta dela junto deles
e faríamos árvores de natal com pinhas
algodão e o som das nossas risadas
queria conhecer meu pai menino
viver um pouco a sua história e entendê-lo
para então dar à sua face de hoje 
a feição do menino que fora
entendeneo o menino que ele é

quinta-feira, 29 de maio de 2025

àquela época 
teus olhos pousavam 
em mim como garças 
num fim de tarde 
de represa

o pôr-do-sol nos assistia 
como a um espetáculo
da natureza, do amor 
entre jovens futuros 
amantes

me lembro de como 
a curva dos teus lábios 
ao disfarçar-me o olhar 
escondiam-revelavam 
os olhos pequeninos
curiosos como um menino

*

busco na geladeira
de meus pais

algo que me cure
a ferida nos dedos

o xarope
para o amor perdido

sexta-feira, 23 de maio de 2025

verdejam os campos de trigo o horizonte
os olhos castanhos do pai escondem
o verde por trás
como um bosque que esconde
uma clareira e jaz
na memória do homem

ali, nos trilhos verdunhos da íris
a infância a juventude os netos
correm pelos campos de trigo
ele ainda menino

para o Geraldo meus pés acostumados ao movimento da areia e das ondas do mar do vento trazendo e levando resquícios pisam de repente os pés ...