é pela manhã
que descubro-lembro
os olhos cobertos
pela maquiagem de ontem
então lavo o rosto
esfrego os olhos
a água gelada
nos dedos acordando
circulam a pele
e revelam-desvelam
a mulher de ontem
na senhora de manhã
sexta-feira, 4 de julho de 2025
segunda-feira, 23 de junho de 2025
nunca vi uma mulher chorar
vi mulheres lavarem louças
passarem roupa
com amaciante
ajudei a encher baldes
passar no chão
o pano limpo
um pouco de desinfetante
na sala
no quarto
no corredor
nos banheiros úmidos
dos banhos tomados
a mão
alisando a toalha da mesa
com migalhas de pão
o ouvido atento
os olhos distantes
algumas delas sorriem
por empatia
e outras abraçam
homens e crianças
de narizes entupidos
sem palavras
aos prantos
nunca vi para onde vão os olhos
secos dessas mulheres
quando ignoram o choro
e viram muralhas
segunda-feira, 9 de junho de 2025
minhas mãos naquele momento
pareciam feitas de vidro quente
frágeis e aquecidas tentavam
segurar o sangue dentro de mim
ou as lágrimas ou esse mel
que a todo momento parecia
buscar um caminho-saída
não sentia meu corpo explodir
mas sobretudo como se eu precisasse
ser maior maior maior maior maior
como se em mim faltasse espaço
mas não por erro matemático
do que há dentro mas
sim como se necessário fosse
que meu corpo fosse plástico
em vez de vidro
como se pudesse esticar mais
do que 'rebentar
sábado, 31 de maio de 2025
quinta-feira, 29 de maio de 2025
*
sexta-feira, 23 de maio de 2025
sábado, 17 de maio de 2025
quarta-feira, 7 de maio de 2025
o que precisa nascer
aparece no sonho buscando frinchas no teto
—Adélia Prado
as minhas pernas nem se abriam
no meu sonho eu dormia como nunca
eu menstruava e a cama era branca
vermelha agora do meu ventre
uma menstruação horrenda
sem mais mistérios eu tinha parido
de mim escorria um projeto de gente
feito fato era um feto um meu feito
e me recusava a entendê-lo
deformado como era queria ser
no mundo e me culpar por tudo
me recuso eu disse ao acordar
me recuso eu dizia ao me levantar
me levantei e saí por aí sem lembrar
me levantava e saía por aí dançar
mas não esqueci do sonho
Codesto solo oggi possiamo dirti,
ciò che non siamo, ciò che non vogliamo
—Eugenio Montale
posso querer tudo e querendo descubro
ausências lacunas escondidas
desejos enfim desvelados
aprendo que por querer posso também
não ter mas que fundamental é querer
criar uma futura eu e querer que ela exista
e que eu seja aquela que sempre quis ser
posso querer e posso ter tudo o que quiser
mas por mais que me ensinem tudo o que se pode querer
mas por mais que me ensinem tudo o que se pode ser
em mim restam
apenas estas
lacunas
:
vias que em mim o querer não persegue
terça-feira, 29 de abril de 2025
como uma rosa desabrochada
sinto todo o meu corpo
pesar sobre a minha existência
a cabeça que vai em direção ao chão
os ombros tristes em sua postura curva
tudo me pesa em mim
a cabeça os braços os peitos as coxas
e quando sangro
vermelha feito rosa
me despetalo
desejando uma chuva torrencial de verão
desejando uma geada brutal de inverno
que me desfaçam
que me arranquem do pé
me tive tatuada na pele uma rosa pensa
porque é a flor preferida da minha mãe
e eu como suas rosas cresci no seu jardim
sei que como ela tenho as coxas pra ser firme
me tive tatuada na pele também margaridas
leves como a minha avó que sempre as preferiu
e me tive tatuada na pele ainda um cyclâmen
porque é a minha flor preferida, que li
num verso de merini um dia
porque ela se vira quase toda do avesso
— como um escorpião, que me rege o sol —
porque ela se vira quase toda do avesso
criando a ilusão de uma flor
se expõe inteira, firme
frágil
a silhueta da sua barriga se desenha e uma cidade desaparece do mapa litorâneo as suas células são criativas e se reproduzem enquanto a geog...
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se eu fosse confeiteira te faria um bolo de milho bem amarelinho como as tuas rosas mais cheirosas um bolo como uma vida inteira por cima de...