sábado, 17 de maio de 2025

os campos de aveia verdinhos
tremelicam ao vento
confundem os olhos
da mãe gramíneos
que olha o horizonte
ouve na voz do vento
a voz do filho ido

quarta-feira, 7 de maio de 2025

o que precisa nascer
aparece no sonho buscando frinchas no teto

—Adélia Prado

as minhas pernas nem se abriam
no meu sonho eu dormia como nunca
eu menstruava e a cama era branca
vermelha agora do meu ventre
uma menstruação horrenda
sem mais mistérios eu tinha parido
de mim escorria um projeto de gente
feito fato era um feto um meu feito
e me recusava a entendê-lo
deformado como era queria ser
no mundo e me culpar por tudo
me recuso eu disse ao acordar
me recuso eu dizia ao me levantar
me levantei e saí por aí sem lembrar
me levantava e saía por aí dançar

mas não esqueci do sonho

Codesto solo oggi possiamo dirti,
ciò che non siamo, ciò che non vogliamo

—Eugenio Montale

posso querer tudo e querendo descubro
ausências lacunas escondidas
desejos enfim desvelados
aprendo que por querer posso também
não ter mas que fundamental é querer
criar uma futura eu e querer que ela exista
e que eu seja aquela que sempre quis ser
posso querer e posso ter tudo o que quiser

mas por mais que me ensinem tudo o que se pode querer
mas por mais que me ensinem tudo o que se pode ser

em mim restam

apenas estas

lacunas

 :

vias que em mim o querer não persegue

terça-feira, 29 de abril de 2025

me desvelo-invento a cada palavra
me vinha de dizer palavra-verso
mas em mim o verso só vem

nunca vai 
o verso não vira voz
o verso vira vós

me vela o inverso
: enfim o verso vai

como uma rosa desabrochada
sinto todo o meu corpo
pesar sobre a minha existência
a cabeça que vai em direção ao chão
os ombros tristes em sua postura curva
tudo me pesa em mim
a cabeça os braços os peitos as coxas
e quando sangro
vermelha feito rosa
me despetalo
desejando uma chuva torrencial de verão
desejando uma geada brutal de inverno
que me desfaçam
que me arranquem do pé

me tive tatuada na pele uma rosa pensa
porque é a flor preferida da minha mãe
e eu como suas rosas cresci no seu jardim
sei que como ela tenho as coxas pra ser firme
me tive tatuada na pele também margaridas
leves como a minha avó que sempre as preferiu
e me tive tatuada na pele ainda um cyclâmen
porque é a minha flor preferida, que li
num verso de merini um dia
porque ela se vira quase toda do avesso
— como um escorpião, que me rege o sol —
porque ela se vira quase toda do avesso
criando a ilusão de uma flor
se expõe inteira, firme
frágil

domingo, 16 de março de 2025

antiaceleracionismo

no jardim de rosas da minha mãe
nasceram duas novas rosas
uma branca rajada de rosa
das pontas para dentro
e uma entre o laranja
e o vermelho
talvez alguém saiba
o nome
dessa cor
o cheiro é delicado
parece quase como
quando alguém passa
por um corredor
e quando você chega
tem só o perfume
de quem passou
como numa cena
do ozu

essas rosas
existem por alguns dias
a oportunidade
(esse cavalo selado
que passa galopante
na minha frente,
meu pai me ensinou)
não é uma janela
é uma fresta
por onde por acaso
entra alguma luz
e uma brisa

nos dias em que vivem
desde o botão
até as pétalas se tornarem marrom
são um lembrete
da beleza inescapável da vida
é uma rosyo story
um lembrete

de que a vida
é esta

uma

e não tem pressa

as rosas desdobram o nome
e o tempo

sexta-feira, 14 de março de 2025

to estimate the inestimable

de uma cena de la chimera

decapitar uma estátua
tirar só a cabeça de cibele
de seu santuário
criar o mistério
aumentar seu valor

non sei fatta per gli occhi degli uomini 

deixar para trás animaizinhos
e um felino aos seus pés
rugindo para nenhum ouvido
colocá-la numa sala
enorme
mal decorada
na mesa em que um gato
se aninha ctônico
e evocante

domingo, 2 de fevereiro de 2025

Adivinho o vendaval
pelas goiabas estateladas pelo chão
pelo desenho do teu corpo
na grama úmida e amassada
pelo vaga-lume que se confunde
no céu noturno e pouco a pouco cravejado
pelos olhos que se adaptam à luz das estrelas

que apesar de tudo
chegam

numerosas

e colocam tudo 
na justa medida

domingo, 5 de janeiro de 2025

nos meus erros
acabei por ver
só eros

quarta-feira, 25 de dezembro de 2024

teu corpo é um acúmulo de estações
de chuvas e tempestades carregadas de trovões
de sóis e veraneios salgados com cor de fruta madura
nele estão todos os anos e todos os filhos
a tua criança e a tua mãe juntas
na pontinha da tua unha a dor de algumas separações
e quando passas as pontas dos dedos recordas
o caminho da cicatriz, desenho de tantas reparações

sexta-feira, 20 de dezembro de 2024

primeiro o dedo
se enfia no suco fermentado
a textura das pequenas bolhas
do peso da fruta mais que madura
parecem querer decompor também
este corpo
então a mão
tenta agarrar ali dentro algo de vida
pensa em picles e cogumelos crescendo
na roseira que a cada alguns dias se renova
não sabe se deve fazê-lo
se o processo de fermentação
de deixar apodrecer o que não tem mais lugar
é tão impuro quanto seu corpo
se seria possível jogar um pouco de açúcar
por toda a sua pele e se deixar transformar
levada a outro estado de impermanência
ou se antes muito lygianamente seria comida por formigas

para o Geraldo meus pés acostumados ao movimento da areia e das ondas do mar do vento trazendo e levando resquícios pisam de repente os pés ...