segunda-feira, 30 de janeiro de 2023

se eu descasco o machucado
e me arregaço inteira
abrindo a ferida
é como se me ajoelhasse
e tivesse de frente
apenas os teus pés
limpos e com pelos
a unha um pouco encravada
mas bem cortada e reta
e a minha vontade é
lamber
a ferida inteira

sábado, 21 de janeiro de 2023

na minha cozinha prospera
uma árvore da felicidade
em meio a suculentas gordura
que fica nas folhas
poeira da rua
e um tanto
de umidade
vendo de fora ninguém
imagina
como prospera essa árvore
num vasinho de plástico
já quase morreu afogada algumas vezes
e outras tantas de sede
só neste ano mas nada
que um pouco
de drenagem ou
de água da torneira
não resolva
todos os seus problemas
acontece
que é uma árvore
macho
prospera y prospera
junto dela havia
no começo
uma árvore fêmea
hoje adubo fantasma
às vezes de relance
ainda acredito
que ela está ali

da terra, nada brota

sexta-feira, 6 de janeiro de 2023

você veio me perturbar em plena noite
não era lua cheia
e fazia um calor terrível
mas ameno para este verão
você entrou como se nada tivesse acontecido
e eu imediatamente me vi de volta
nos teus braços
tuas conversas
tua voz reverberava na minha pele
íamos caminhando
você sempre à frente
sempre
ia me falando
num passo cada vez mais largo
você cada vez mais distante
eu não entendia aonde
você estava indo
sem mim?
não, eu estava logo atrás
você me olhava enquanto falava
e aí se distraiu com alguém
que veio no seu passo
no seu ritmo
e enquanto meus passos pesados
me prendiam numa distância,
eu juro, quilométrica
você chegou na praia
numa praia toda sua
e falava falava
gesticulava gesticulava
eu tentava tentava
te ouvir te alcançar
estar ali com você
contigo
um minutinho mais
e como da última vez
a onda veio me afogando
me levando e eu descobri
que não sei nem mergulhar
saí do sonho pra te deixar nadar

terça-feira, 3 de janeiro de 2023

aquela manhã em ypres

abacaxi não cai da árvore
não faz entender a gravidade assim
mas é a abacaxi que cheira o ar esta manhã
maldita prevista programada arquitetada
é a abacaxi e banheiro público limpo
que cheira esta manhã azul
olhos e peles azuis
caindo ao chão
se estabacam
e fazem entender

sábado, 24 de dezembro de 2022

neste natal
me preparo
para amanhã
domingo
sem família

2h que minhas mãos passaram
amassando enrolando
misturando cortando
cozinhando gelando
secando guardando
não reconheço o
poder de cada mão
o que há entre a unha e o
dedo é um pouco
de tudo o que não sei

minhas mãos não lembram
a receita que há tanto tenho errado
e as mesmas mãos encontram
na ponta dos dedos a receita
(a tela luminosa me avisa:
vai ovo)

o que comem os veganos
as veganas es veganes
vi uma receita no tiktok
que ensina a fazer um peru
que parece peru e é fake
mas é news
e como é bonito
enquanto se parece
com o que não é

minhas mãos reagem
escolhem algo mais que ver
uma memória falsa
natal do ano passado
me acompanhavam as mãos
um drink e umas luzes
que desta vez esqueci
de pendurar

é que
não há mais paredes
móveis ou plantas
em que me apoiar

como me pesam os anos destes
peitos meio fartos
de tudo
me atrapalham o movimento
dos braços e balançam
com o caminhar
um ritmo todo seu
me pesavam sua juventude
flor que desabrocha
dente que nasce
o corpo
não aguenta o corpo
ainda
tudo isso
dentro
tanto
peso

quarta-feira, 7 de dezembro de 2022

a tua janela que há tanto não olho me olha
duros anos os que marcaram o espanto
com que a olhava a te procurar de esguelha
ou o teu gato marcando encanto na rua vazia
o sol a pino não sei se me cega a lembrança
do teu gesto ou o reflexo na janela de onde vivias
com a tua família e eu sempre a vagar pela vizinhança
vago ainda feito oferenda a iemanjá dia primeiro
e me lembro dos nossos pés fincados era janeiro
a praia vazia de tudo ecoava a minha voz e o teu
olhar sereno de quem pouco pouco me suporta
- e ama, não me dizes nunca, mas, como poucos, amas -
aperto o olhar e diminuo o passo pra ver se sou eu
quem falta na janela uma mão que bate à tua porta
(vacila a memória: é fictícia: eletrônico, o portão)
a tua janela hoje: aluga-se; a placa, a janela - é uma porta
fechada fechada
eu passo como quem não quer nada
e quase me atropela um caminhão
as sacolas vazias: não há mais rimas

sábado, 3 de dezembro de 2022

segunda-feira, 28 de novembro de 2022

não tinha pressa em saber
onde isto qualquer coisa
estava me levando
há meses reformando
dois cômodos da casa
um só de passagem
o corredor das portas
não me interessavam
trends e decor e uma
casa pronta em dias
nesta casa em que vivo
há mais de cinco anos
sinto-me sempre
em reforma
paredes arcaicas cavadas
móveis velhos rasgados
sinto-me sempre e mais
de mudança

quinta-feira, 10 de novembro de 2022

lambo o sangue da ferida aberta
enquanto o ferro me fere a língua
me fere a lembrança das tuas mãos
que lavavam geladeiras e pisos
a bucha tão adaptada a elas
como explicar o som da tua voz
de fundo de mudança de tom
dos meus dias amarelos

é claro que
eu não sei dizer
se era realmente verde
a tua camisa naquele dia
se era azul ou amarela
ou vermelha todas
as tuas cores

mas eu lembro assim
teus olhos nem tão fixos
na prateleira da geladeira
a água corrente da torneira
do tanque te beijavam as mãos
espumadas de sabão
e confundo
o teu olhar verde
com o teu olhar azul
segurando o nosso gato em tuas mãos
é um beijo o encontro desses corpos
e eu ali ausente registrando
me lembro assim
como uma melodia
um samba
que insiste em tocar

escorre do canto da boca
sangue e baba e suor
o meu dia não tem fim
não sei quando foi
que te amei
se te amei
meu bem
tanto, me negastes
e eu não
eu não
te amei

se buda é um menino
de rua que tenta
paula glenadel
te engambelar de cima
de uma bicicleta lilás
aliás de debaixo do pé
do mundo, é imundo
quem é
judas, jesus?

a silhueta da sua barriga se desenha e uma cidade desaparece do mapa litorâneo as suas células são criativas e se reproduzem enquanto a geog...