como me pesam os anos destes
peitos meio fartos
de tudo
me atrapalham o movimento
dos braços e balançam
com o caminhar
um ritmo todo seu
me pesavam sua juventude
flor que desabrocha
dente que nasce
o corpo
não aguenta o corpo
ainda
tudo isso
dentro
tanto
peso
sábado, 24 de dezembro de 2022
quarta-feira, 7 de dezembro de 2022
a tua janela que há tanto não olho me olha
duros anos os que marcaram o espanto
com que a olhava a te procurar de esguelha
ou o teu gato marcando encanto na rua vazia
o sol a pino não sei se me cega a lembrança
do teu gesto ou o reflexo na janela de onde vivias
com a tua família e eu sempre a vagar pela vizinhança
vago ainda feito oferenda a iemanjá dia primeiro
e me lembro dos nossos pés fincados era janeiro
a praia vazia de tudo ecoava a minha voz e o teu
olhar sereno de quem pouco pouco me suporta
- e ama, não me dizes nunca, mas, como poucos, amas -
aperto o olhar e diminuo o passo pra ver se sou eu
quem falta na janela uma mão que bate à tua porta
(vacila a memória: é fictícia: eletrônico, o portão)
a tua janela hoje: aluga-se; a placa, a janela - é uma porta
fechada fechada
eu passo como quem não quer nada
e quase me atropela um caminhão
as sacolas vazias: não há mais rimas
sábado, 3 de dezembro de 2022
segunda-feira, 28 de novembro de 2022
não tinha pressa em saber
onde isto qualquer coisa
estava me levando
há meses reformando
dois cômodos da casa
um só de passagem
o corredor das portas
não me interessavam
trends e decor e uma
casa pronta em dias
nesta casa em que vivo
há mais de cinco anos
sinto-me sempre
em reforma
paredes arcaicas cavadas
móveis velhos rasgados
sinto-me sempre e mais
de mudança
quinta-feira, 10 de novembro de 2022
lambo o sangue da ferida aberta
enquanto o ferro me fere a língua
me fere a lembrança das tuas mãos
que lavavam geladeiras e pisos
a bucha tão adaptada a elas
como explicar o som da tua voz
de fundo de mudança de tom
dos meus dias amarelos
é claro que
eu não sei dizer
se era realmente verde
a tua camisa naquele dia
se era azul ou amarela
ou vermelha todas
as tuas cores
mas eu lembro assim
teus olhos nem tão fixos
na prateleira da geladeira
a água corrente da torneira
do tanque te beijavam as mãos
espumadas de sabão
e confundo
o teu olhar verde
com o teu olhar azul
segurando o nosso gato em tuas mãos
é um beijo o encontro desses corpos
e eu ali ausente registrando
me lembro assim
como uma melodia
um samba
que insiste em tocar
escorre do canto da boca
sangue e baba e suor
o meu dia não tem fim
não sei quando foi
que te amei
se te amei
meu bem
tanto, me negastes
e eu não
eu não
te amei
porque uma mulher é uma mulher etc e gal
vamo
galera
mulheres
peguem suas tranças
trancem um transe
coletivo
mas que ideia
é essa: mulher?
é quem sai de biquíni e toma
o sol para si sem nem querer
- mas que ideia
é essa, mulher?
é sair de casa de biquíni
e nomear uma duna sem
nem saber
mas que ideia
é essa mulher?
anjo profano
a pele do futuro
- que se passa
pela tua cabeça
tão oquinha
vaziazinha
trançada, menina?
não diga bobagens
nem futilidades
nada te ocorre
nada te passa
que não seja um vento
uma brisa
vazio como um cesto
trançado em palha
nem vento não me passa
um clima hostil
tudo queima
nessa cidade pequena
bora galera mulheres
tomem as fábricas
os campos
as camas
a produção
os meios
de reprodução
plantem plantem plantem
rasguem o saco
cheíssimo
deixem que caiam
das tranças de rayzas
as sementes todas
plantem plantem plantem
bananeiras
varram com as tranças a terra
em transe
façam como a vegetariana
finquem fundo os dedos na terra
criem ali raízes
de pernas pro ar
ra - ih! - zes
também ísis é um nome
nomeiem a todes
e percam
o próprio
nome próprio
mulheres
rasguem
a pele do nome
sejam mulheres
despeladas
firam a pele da terra
firam a pele da pele
pelo broto pela casca
brotem o pão
da terra-marielle
teçam o fio da rede
de vossas aranhas
e riam
se quiserem
riam-se toda
riso-bruxa
riso soltas
riso-raiz
façam um risotto selváttico
almoço robusto selvagem
grãos e grãos e grãos
todes juntes
torrões
arroz com cogumelos
de terra temperados
destemperem-se
e sim
sim sim sim
com um pouco de sal
na ferida da pele
temperem a terra
com o calor do corpo
mastiguem a terra
com seus dentes galeanos
teçam tecidos de grãos
nos cabelos das meninas
sibilantes raíssas
silva de silva e silva
o que diria
judith butler
ou quem sabe
uma carta
de julia kristeva
dá pra buscar
num ensaio de
donna haraway
uma resposta
um caminho
uma via
a raiz
do problema
das raízes
doentes y fúngicas
dentro dos vasos
de plástico a terra
adubada y errada
não sei se
choro pela planta
ou fico feliz pelo fungo
alguém por favor
me diga
se sorrio ou se choro
que saída tomo
vão se acender as luzes
de emergência
pra esse meu dilema?
quarta-feira, 2 de novembro de 2022
considere abrir uma janela
abra então os olhos
o vento roça a pele
o cheiro da comida
todas as janelas já estão abertas
as coxas trêmulas
denunciam o tempo
que dia é?
este corpo idiota pergunta
as nuvens anunciam a primavera
e teu corpo já troca pelos
renova-se
ainda que a tua resistência
seja um traço negativo
da memória
da experiência
vê o cabelo cair e nascer
novo e escuro, grosso
a pele hidratada
se desfazer couraça
como quem rega plantas
considere abrir uma janela
antes que o vento sufoque
do lado de fora
sexta-feira, 14 de outubro de 2022
putrificada
embora a ferida insista
no processo de cicatrização:
a vontade de lamber sangue
a unha imunda
de terra suor catarro
cutuca a casca arranca
as bordas primeiro
secas prontas
vão-se embora
então às pressas
sedenta em ânsia
de vermelho quente
enfim devagar lambe
a língua semi-saciada
casca sangue
sangue pele
guspe sangue
sangue sujeira
pele guspe casca
vermelhos e vivos
ainda um pedaço de vidro
purificada se levanta
os joelhos lindos
as mãos: um transe
na boca, a língua dormente
sangra
para o Geraldo meus pés acostumados ao movimento da areia e das ondas do mar do vento trazendo e levando resquícios pisam de repente os pés ...
-
ora thiago falando de frankenstein entro nos teus lábios observo cautelosa a flor que se abre entre meus dedos toco a carne da tua boca des...