tive um filho
chamei-o ibérico
pela piada pelo humor
pela violência
principalmente
pela falta de graça no moleque
ibérico cresceu papagaiou-se
a todos sempre dizia
olá chamo-me ibérico
olá chamo-me ibérico
conhecia o toque da relva
e a textura do marítimo sal
— quantas lágrimas ó roberval —
dizia a todos sempre
ibérico é meu nome
ibérico é meu nome
um belo de um dia mamãe
a mão espalmada
dá-lhe um tapa na nuca
e resmunga rindo-se toda
calaboca ô américo
terça-feira, 11 de outubro de 2022
quarta-feira, 5 de outubro de 2022
se de repente eu me lembro
de olhar para as estrelas
e deslumbrada ver o
passado tão radiante
que me
fere
os olhos
passado evidente-
mente morto
ou
ao menos
já tão distante
tão certamente fora de
minhas mãos miúdas ainda
que ao alcance de meus
feridos olhos marejados
a visão é um vacilo
ali
escondido entre constelações
estrelas há muito idas
sei e sinto sem ver
a tua presença
o teu perpétuo brilho
no vazio do céu noturno
a evidente ausência
do meu cometa
que passou
e continua
sua rota
cósmica
segunda-feira, 3 de outubro de 2022
faz tanto tempo que tu
não me olhas
não me ouves
não me tocas
e todas as folhas
que caem desde o outono
me lembram de ti
não tanto pela queda
pela separação
o corte necessário
por perderem a cor
por se desmancharem
é a tua voz que escuto
rouca distante abafada
a chuva que bate
afoga o teu timbre
bate e afoga
a tua voz nas ruas
molhadas vacilantes
afogadas
pluviais
sazonantes
torrenciais
lentamente
afoga e cai
nessa umidade
minha cabeça trovoa
no lampejo te vejo
iluminad'as
tuas mãos
não me tocam
fechadas
grito e não me ouves
não me respondes
não vejo teus olhos
sei que não me olhas
meu grito ecoa
afogado
as ruas molhadas
até a tua casa
é um
eu morro
a minha voz
os meus olhos
o teu suor
não chegam
onde estás
teus olhos de menino
silenciosos
já os cabelos em pérolas
me pergunto
não me escutas
não me ouves
não me vês
não me tocas
a pele
sou a despelada
ali
apertada espremida entre
as tuas mãos molhadas
afogada
a pérola?
domingo, 2 de outubro de 2022
quinta-feira, 8 de setembro de 2022
billie eilish estava errada
você não me fez
odiar esta cidade
tu me fez
aliás
desta cidade fez
um lugar sagrado
não há restaurante
rua praça ponto de ônibus
que eu vá
sem ver-te
o interdito
o não dito
no ar que eu respiro
no chão que piso
nada me sufoca ou me derruba
flutua
a ruptura
entre nós: tudo: já havia sido dito
há que ser dito
você me perguntava e eu não
sabia o te dizer
o sagrado
proibido apenas
em tudo
e eu
não odeio esta cidade
e você
não me fez odiar esta cidade
não posso odiar
o que não é meu
mais ainda
não consigo
odiar o que sou eu
você
domingo, 21 de agosto de 2022
segunda-feira, 8 de agosto de 2022
a pérola
esta cidade é uma concha
hermeticamente fechada
(ironicamente toca hermeto
pascoal, na vizinhança)
dentro
na língua a pedra
um pedaço de ruína
a saliva é puro pó
do teu quarto, que não conheci
do teu banheiro, onde não vi
teus cabelos no ralo
da tua janela, de onde não percebi
o telhado da minha casa no horizonte
da tua cama, que já desconhece o cheiro
e o calor da minha pele
nela em que tanto desembaraço
já cometemos
quando um dia empunhar a faca
certa com a lâmina ardida
adequada certeira e puder abrir
esta cidade
arregaçando delicadamente
de um lado a outro a concha
feito um sorriso enternecido
me pergunto se finalmente vou
encontrá-la em tuas mãos
sábado, 30 de julho de 2022
tomateiro
por anos cultivei
ou tentei
cultivar
um tomateiro
de tomates cereja
por anos busquei
as soluções possíveis
para o problema
do tomateiro
que queria logo
dar frutos
e se matava
porque
na verdade
estava morrendo
e queria continuar
vivendo;
do tomateiro
que queria água
e morria
afogado;
do tomateiro
que precisava do sol
e inteiro se queimava;
do tomateiro
que de toda terra
via brotarem
fungos e cochonilhas;
por anos experimentei
métodos caseiros
com fumo de corda
detergente
com vinagre
com leite
com poda
machucando o caule
formando cicatrizes.
por horas encarei
o vaso vazio
depois que decidi
arrancar dali
o tomateiro
de quem até comi
alguns tomates cereja
pequenos, explosivos, vermelhos.
meses depois li
um poema de
joão cabral de melo neto
que me sussurrou o segredo
da morte do tomateiro
tudo ali sofre a morte mansa
do que não quebra, se desmancha
saiba, joão, que ainda encontro
pela casa
em lugares inóspitos
folhas secas e pedaços de galho
do pé que pereci
e nas mãos a mancha vermelha
do nosso desmanchar.
terça-feira, 31 de maio de 2022
do fim.
todo este tempo estive perdendo.
i.
tem a idade de uma criança
quer dizer, sobe em árvores
brinca de garrafão e arranha
os joelhos virgens
essa é a cicatriz
a inaugurar a pele
que se abre
tem a idade de uma criança
quer dizer, sabe de árvores
algumas coisas mas
essencialmente sabe
que não sabe
de todas as coisas e aí sobe
a primeira das angústias
a que chama de curiosidade:
o interesse pelo vermelho vivo
da amora que explode em sua boca,
não pela primeira vez, e ainda surpreende
o sabor ácido que invade seu corpo miúdo;
a pergunta que não ganha corpo na língua
e vai se criando dentro, dança como uma planta
às vezes até esquece que foi no suco doce
do sangue que se confunde no ácido da
boca a pele aberta do joelho vivo
que deu um salto
nem sempre
é preciso competir
ii.
verde a garrafa verde o mato verdes os anos
dentro do dedo aberto um pedaço do vidro
e o cheiro do gosto do vidro no ferro aberto
o dedo que expulsa jorrando vermelho
por baixo de onde a cicatriz em queloide
às vezes ainda explode —
a forma do que foi ar
rancado
iii.
um pedaço de arame farpado não pode
viver dentro do braço, queimado de sol
e macio, tenro como fruta madura
feito um pêssego pronto pra ser
mordido, mas a idade que tem
não é do tempo de colheita
nos olhos do pai o castanho dá espaço ao verde
e vê de relance um pedaço que tem em si
o arame não ficou lá dentro, apenas abriu
teu braço-menino e de lá fez sair
todo o suco que ninguém bebeu
por baixo da pele costurada não há pedaço
do que foi?
iv.
todo este tempo estive perdendo
e toda criança em idade
mais ou menos de joelhos ralados
pálpebras, dedos e braços abertos
mesmo sabendo que não sabe
já sabe que perder é a primeira forma
de ganhar
v.
e toda criança tem idade pra saber
que não há como competir
com as garrafas escondidas no mato
ou os arames farpados de propriedades que escondem certas cachoeiras
ou o concreto do chão que o tempo todo segura o pequeno corpo
e dele guarda o que lhe cabe
ou a garrafa de plástico que teu irmão não vê
quando te faz quase não mais ver
não há como competir com o que acaba
inevitavelmente parte de ti
vi.
o corpo tem a idade de tudo, nos ensina a ana:
23 anos dos joelhos ralados
numa corrida para vencer com sabor de jambo vermelho quase roxo
21 anos do joelho aberto na praia numa caçada à cadela nina,
que, como todo cão e toda criança, se recusava a encerrar o dia
20 anos também da coroação num arbusto de coroa de cristo
o vermelho vivo da flor não desenganava dos espinhos
19 anos do polegar aberto na garrafa quebrada no mato
na subida implacável pra ver do mais alto o mar sem fim
18 anos do braço aberto no arame farpado da cachoeira
pra aprender que nem todo atalho é caminho
15 anos ou mais dos cotovelos ralados na bicicleta
na chuva de verão deslizante
14 anos ou menos da mão que abriu pela primeira vez uma lata de tomate abre-fecha
colocando dentro do corpo dançante o vermelho da carne e o sangue da fruta
metade da idade do corpo ou menos da menor lembrança do ataque
de raiva do irmão e o olho dentro da garrafa de plástico
quase 8 anos de quando nossas bocas abriram
costurando nossos corpos nus
o corpo tem todas as idades
e está sempre de aniversário
a pele cicatriza
vii.
todo este tempo estive perdendo
e ganhando partes de mim
que é a única forma de movimento
todo inverno será aniversário
do que não posso perder
viii.
que idade tem a criança que sempre somos?
que idade, a criança que nunca tivemos?
que idade, a vida, que continua
se tudo é nascimento?
quinta-feira, 12 de maio de 2022
nunca imaginei que poderia ter
um bolo inteiro só pra mim
e que poderia comer
de colherzinha
lambuzar o corpo
todo e me lamber
até morrer
nunca imaginei
que uma fatia
pudesse durar o tempo
de uma vida
e que eu me lembraria
e que eu me lambuzaria
feito criança no próprio aniversário
ou feito a rafa
naquela festa em casa
não sei se tu lembra
ela comendo bolo de laranja
de colher, direto da forma
tava sentada num canto da sala
e nem era a mais bêbada de nós
e naquele momento
a boca com creme de limão
e farelo de bolo
um sorriso meio torto
de felicidade genuína
felicidade de quem comia
não uma fatia
mas o bolo inteiro
todo o bolo cabia no seu colo
e era imenso
a textura macia
que só uma criança reconheceria
em qualquer momento da vida
mesmo depois de virar tequila
mas no fim do dia
no prato o que se tem?
as migalhas
de tudo o que comemos
o pão o queijo
um pedaço de tomate
que tu não come
farelo de bolo
já seco
olho pro prato e lembro
do bolo inteiro
nas mãos a migalha
e tanto
tanto espaço
o que restou e vai
faltando
geografia da memória
a barriga há tanto vazia
mas se contenta
ainda
com o prato vazio?
se contenta com o que vê
e lembra do sabor
tomando conta da boca cheia
a saliva e as pupilas gustativas
a boca agora seca
um meio sorriso
cheio
de dentes
a fome
o fim
de tudo
para o Geraldo meus pés acostumados ao movimento da areia e das ondas do mar do vento trazendo e levando resquícios pisam de repente os pés ...
-
ora thiago falando de frankenstein entro nos teus lábios observo cautelosa a flor que se abre entre meus dedos toco a carne da tua boca des...