sábado, 30 de julho de 2022

tomateiro

por anos cultivei
ou tentei
cultivar
um tomateiro
de tomates cereja
por anos busquei
as soluções possíveis
para o problema
do tomateiro
que queria logo
dar frutos
e se matava
porque
na verdade
estava morrendo
e queria continuar
vivendo;
do tomateiro
que queria água
e morria
afogado;
do tomateiro
que precisava do sol
e inteiro se queimava;
do tomateiro
que de toda terra
via brotarem
fungos e cochonilhas;
por anos experimentei
métodos caseiros
com fumo de corda
detergente
com vinagre
com leite
com poda
machucando o caule
formando cicatrizes.
por horas encarei
o vaso vazio
depois que decidi
arrancar dali
o tomateiro
de quem até comi
alguns tomates cereja
pequenos, explosivos, vermelhos.
meses depois li
um poema de
joão cabral de melo neto
que me sussurrou o segredo
da morte do tomateiro
tudo ali sofre a morte mansa
do que não quebra, se desmancha
saiba, joão, que ainda encontro
pela casa
em lugares inóspitos
folhas secas e pedaços de galho
do pé que pereci
e nas mãos a mancha vermelha
do nosso desmanchar.

terça-feira, 31 de maio de 2022

do fim.

 todo este tempo estive perdendo.

i.

tem a idade de uma criança
quer dizer, sobe em árvores
brinca de garrafão e arranha
os joelhos virgens
essa é a cicatriz
a inaugurar a pele
que se abre

tem a idade de uma criança
quer dizer, sabe de árvores
algumas coisas  mas
essencialmente sabe
que não sabe
de todas as coisas e aí sobe
a primeira das angústias
a que chama de curiosidade:
o interesse pelo vermelho vivo
da amora que explode em sua boca,
não pela primeira vez, e ainda surpreende
o sabor ácido que invade seu corpo miúdo;
a pergunta que não ganha corpo na língua
e vai se criando dentro, dança como uma planta
às vezes até esquece que foi no suco doce
do sangue que se confunde no ácido da
boca a pele aberta do joelho vivo

que deu um salto

nem sempre
é preciso competir


ii.

verde a garrafa verde o mato verdes os anos
dentro do dedo aberto um pedaço do vidro
e o cheiro do gosto do vidro no ferro aberto
o dedo que expulsa jorrando vermelho

por baixo de onde a cicatriz em queloide
às vezes ainda explode —
a forma do que foi ar
rancado


iii.

um pedaço de arame farpado não pode
viver dentro do braço, queimado de sol
e macio, tenro como fruta madura
feito um pêssego pronto pra ser
mordido, mas a idade que tem
não é do tempo de colheita

nos olhos do pai o castanho dá espaço ao verde
e vê de relance um pedaço que tem em si
o arame não ficou lá dentro, apenas abriu
teu braço-menino e de lá fez sair
todo o suco que ninguém bebeu

por baixo da pele costurada não há pedaço
do que foi?


iv.

todo este tempo estive perdendo

e toda criança em idade
mais ou menos de joelhos ralados
pálpebras, dedos e braços abertos
mesmo sabendo que não sabe
já sabe que perder é a primeira forma
de ganhar

v.

e toda criança tem idade pra saber
que não há como competir
com as garrafas escondidas no mato
ou os arames farpados de propriedades que escondem certas cachoeiras
ou o concreto do chão que o tempo todo segura o pequeno corpo
e dele guarda o que lhe cabe
ou a garrafa de plástico que teu irmão não vê
quando te faz quase não mais ver

não há como competir com o que acaba
inevitavelmente parte de ti


vi.

o corpo tem a idade de tudo, nos ensina a ana:
23 anos dos joelhos ralados
numa corrida para vencer com sabor de jambo vermelho quase roxo
21 anos do joelho aberto na praia numa caçada à cadela nina,
que, como todo cão e toda criança, se recusava a encerrar o dia
20 anos também da coroação num arbusto de coroa de cristo
o vermelho vivo da flor não desenganava dos espinhos
19 anos do polegar aberto na garrafa quebrada no mato
na subida implacável pra ver do mais alto o mar sem fim
18 anos do braço aberto no arame farpado da cachoeira
pra aprender que nem todo atalho é caminho
15 anos ou mais dos cotovelos ralados na bicicleta
na chuva de verão deslizante
14 anos ou menos da mão que abriu pela primeira vez uma lata de tomate abre-fecha
colocando dentro do corpo dançante o vermelho da carne e o sangue da fruta
metade da idade do corpo ou menos da menor lembrança do ataque
de raiva do irmão e o olho dentro da garrafa de plástico

quase 8 anos de quando nossas bocas abriram
costurando nossos corpos nus

o corpo tem todas as idades
e está sempre de aniversário

a pele cicatriza



vii.

todo este tempo estive perdendo
e ganhando partes de mim
que é a única forma de movimento
todo inverno será aniversário
do que não posso perder



viii.

que idade tem a criança que sempre somos?
que idade, a criança que nunca tivemos?
que idade, a vida, que continua
se tudo é nascimento?

quinta-feira, 12 de maio de 2022

nunca imaginei que poderia ter
um bolo inteiro só pra mim
e que poderia comer
de colherzinha
lambuzar o corpo
todo e me lamber
até morrer
nunca imaginei
que uma fatia
pudesse durar o tempo
de uma vida
e que eu me lembraria
e que eu me lambuzaria
feito criança no próprio aniversário

ou feito a rafa
naquela festa em casa
não sei se tu lembra
ela comendo bolo de laranja
de colher, direto da forma
tava sentada num canto da sala
e nem era a mais bêbada de nós
e naquele momento
a boca com creme de limão
e farelo de bolo
um sorriso meio torto
de felicidade genuína
felicidade de quem comia
não uma fatia
mas o bolo inteiro
todo o bolo cabia no seu colo
e era imenso
a textura macia
que só uma criança reconheceria
em qualquer momento da vida
mesmo depois de virar tequila

mas no fim do dia
no prato o que se tem?
as migalhas
de tudo o que comemos
o pão o queijo
um pedaço de tomate
que tu não come
farelo de bolo
já seco
olho pro prato e lembro
do bolo inteiro
nas mãos a migalha
e tanto


tanto espaço


o que restou e vai
faltando
 

geografia da memória


a barriga há tanto         vazia
mas se contenta
          ainda
com o prato vazio?
se contenta com o que vê
  e lembra            do sabor
tomando conta da boca cheia
a saliva e as       pupilas         gustativas
a boca agora seca
um meio sorriso
cheio 

             de dentes

 

a fome


o fim 

          de tudo

segunda-feira, 11 de abril de 2022

língua do p

perseu me persegue pelas ruas
quer arrancar a minha cabeça e
despedaçar-me o corpo feito fosse
uma placa; quer aplacar-me os pés
e furar-me os olhos, jogar os meus restos
numa vala. perseu me persegue pelas ruas
me chama de puta me escarra a cara e me puxa
quer segurar bem alto minha cabeça
feito fosse troféu prova viva da sua verdade.
me pesca em cada esquina o anzol tentando
arrancar a minha língua
me procura e convence
meu pai, meu irmão, minha mãe
e até minha tia falecida
de que minha vida
minhas escamas
meu corpo
são dele
perseu

me persegue pelas ruas
me penetra a boca a língua
áspera me esgarça os dentes
quer se enfiar pela minha goela
alcançar-me as entranhas
e gritar que enfim minha vida
está em suas mãos
e me penetra com seus dedos
secos e me arregaça a pele
quer enfiar a mão e atravessar
desde lá debaixo segurando bem alto
a minha cabeça feito fosse fantoche
da sua perversidade. perseu me persegue
me pede que lhe implore que lhe peça
pelo amor de deus lhe impeça. perseu me
persegue pelas ruas quer-me
arrancar a cabeça quer-me apagar as pegadas
perseu me persegue, mas ainda me paga

— caçada implacável
monstro contra monstro —

cabelos revoltos
penetro-lhe os olhos
arregalo-os sem
nem mesmo tocá-los
(não sabe?)
toda serpentes
pendendo feito pérolas
no pescoço reluzentes
me volto e lhe pego
rasgo-lhe fundo a pele frágil
desde os pés pequenos
passo e penetro
o tronco todo o seu corpo
pequeno
perseu em pedra
eu fúria caudalosa
rio

segunda-feira, 4 de abril de 2022

na minha cozinha crescem flores de manjericão
te digo com tanta certeza e em tamanho transe
que nem mesmo entendendo tua pergunta-resposta
mas são mesmo flores? e eu não sei te dizer
sorrio disfarçando e respondo-pergunto
se parece flor não podemos chamar de flor?
mas gostas mesmo é de certas precisões
és curioso sobre tudo e queres saber
tudo mas dessa vez de novo me concedes
se a chamamos assim a vida inteira
e me sorris um sorriso meio pontual
o rosto suavizado pelas rugas que te invadem
e tu nem percebes os caminhos que te formam
feito maracujá em flor todo se-abrindo-fechando-se
no quintal de uma casa em minha infância havia
um pé de maracujá que protegíamos sempre das larvas
que se alimentavam vorazmente de suas folhas
deixando o triste tronco-trepadeira se envolvendo em si
e por mais que amasse maracujá o pé a flor e sua fruta
perguntava a meu pai se de vez em quando a gente não poderia
deixar viver a lagarta e eventualmente ter no quintal a borboleta
nossa nova coinquilina colorida até mesmo de azul uma cor tão rara
na enorme cachoeira única-coisa-a-se-fazer da cidade em que nasci
viam-se tantas borboletas imensas dançantes e quase sempre azuis
feito um encantamento onde tudo é verde ou marrom até mesmo as águas
que borram toda a paisagem e a vida quando é tempo de chuva intensa
e o que tem as flores do manjericão? me perguntas-tempo-presente
podemos usar para temperar o macarrão respondo-tempo-presente

domingo, 20 de março de 2022

pintores e suas musas

roxo e verde sempre
foram suas cores favoritas
desde menina
diz a voz e mostra
o seu
corpo-canva

terça-feira, 15 de fevereiro de 2022

não suporto quem lê
poesia em voz alta mas pra você ver
se é ana c
tudo belê

quarta-feira, 29 de dezembro de 2021

que são estas cinco pernas
minhas?
antes ainda
que é esta minha
consciência?
percebo-me histórica
mas dato-me
deste instante-agora
sou fruto
talvez fruta
se fosse brincar
do tempo que faz ver
na escuridão a luz
antes e depois
lúcidos
            obscuros
se convergem em mim
na minha cabeça
gelatinosa
e translúcida
às vezes luminosa?
estou me descobrindo ainda
ainda
agora lembro-me bem
eram oito
as pernas
todas minhas
delgadas
pernas
insisto em chamá-las pernas
que é o que não
deixam de ser
alongadas delineiam
o movimento-dança
me propulsionam
sempre na direção da cabeça
mas nem sempre
para cima
rodopio
espiralo
daqui poderia
sim poderia
criar um maremoto
fazer chacoalhar
o éter marinho
em que me fui concebendo
silencio
a minha voz
me movo-dança lenta
me quero criatura suave
fruto•a do meu tempo
no meu tempo
no ritmo
no pulso
de minhas pernas
mutiladas

sexta-feira, 3 de dezembro de 2021

شروق

o árabe me faz pensar no futuro
(eu quero dizer arábico, fazendo
ver que eu fui colonizada)
uma língua tão das profundezas
da civilização pré-ocidental
- se penso na língua que falo
desde pequena, e como falava! -
profunda, e me joga pra frente
eu anoto como quem entende
que a diferença entre os s d z
é uma questão de gravidade
eu escrevo "fica mais grave"
e penso no que vem pela frente
tento mudar o foco
e faço uma brincadeira
fixo o olhar e encontro o som
fica mais fechado eu escrevo
faço como quem fala
árabe há vários anos
milênios
o em vez de e
mas e em vez de a
porque tudo vai se fechando
ficando preso na garganta
o choro
não eu quis dizer
o som
há uma palavra que me faz
pensar em choro mas a imagem
é tão amarela tão quente
como orvalho
ou a lágrima
da manhã
shu-rwq
eu escrevo como quem sabe
transcrever alfabetos
o choro é que dá
o tom da manhã
do sol que nasce
em shu-rwq
como um rebento
ou como um arrebentar-se
no fundo da fala

segunda-feira, 22 de novembro de 2021

[movimento primeiro]

chegastes, um cavalo selado,
a oportunidade-ápice
da felicidade
a novidade última
quer dizer, a eternovidade
chegastes, cavalo selado,
o arco nas costas faz-te
cósmica criatura alada
não o apontas, nem tuas flechas
paras as minhas feridas
me olhas vendo-me toda
me olhas dizendo-me
"tudo é caminho"
e cavalgas
eu que até agora afundada
aqui, me cria criatura marinha
aqui me criava nas águas mudas
mas tu cavalgas
e na tua língua o fogo-acalento
A Verdade
jamais absoluta, me explicas
e desta vez me explicas dizendo-me
me colocas no teu colo
e contigo cavalgo
como é vago e vasto
o mundo no teu flanco
o mundo sob tuas asas
as flechas, explicas adivinhando
o meu olhar e o toque  perigoso
curioso das minhas mãos e dedos
"as flechas são não para ti
mas para mim, sempre
um pedaço de mim
que atiro por aí"
pergunto-me silenciosa

 

[movimento segundo]


se és o filho
da Vênus
a eterna criatura
o Amor
me perscrutas
adivinhando-me
nova-mente
num sorriso
silencioso
fabulosa-mente
te entreténs
às minhas custas
eu às tuas costas
rio como as águas
que me a-fundam
começo a dizer
num grito
in-contido
cavalgamos
no mar!
contigo
tudo é passível
tudo é possível
mesmo quando
digo
és-me impossível
ris adversativa-mente
inadvertidamente
nossos corpos
o laço
cósmico


[movimento terceiro]

jamais o último
o caminho
se torna a constante
constelação
que te adivinho
nos olhos

sábado, 20 de novembro de 2021

2020-2022

sou grata
por tudo
o que sobreviveu
aqui sobreviveu
o que sobreviveu?
aqui sobreviveu?

sou grata
por tudo
o que
sobre
viveu
?

sou grata
a tudo
porque
sobreviveu
por que
sobreviveu
?

quase que
isto aqui
não sobrevive

para o Geraldo meus pés acostumados ao movimento da areia e das ondas do mar do vento trazendo e levando resquícios pisam de repente os pés ...