quarta-feira, 18 de novembro de 2020

entrou pela porta

feito nuvem

em noite de tempestade

quinta-feira, 12 de novembro de 2020

1-minute pause for it

 

ii.

sua preparação está pronta?
sabe com precisão seus dígitos de identificação?
quando foi feita a sua última atualização?
precisa-se que esteja em perfeito estado de otimização
otimiza-se que esteja em perfeito estado de funcionalização
funcionaliza-se que esteja em perfeito estado de conservação
conserva-se o que quer que se esteja em perfeito estado de continuação

 

iii.

 

responda às perguntas com exatidão;
busque concisão; lembre-se
da subjetivação


iv.

o chamado foi feito
anote os números de protocolo
2049PB13N1991AG#M
2049PB04D1988MS#H
B_20pb12no22h33m#t
A_14pb13ju00h00m#t

 

v.

interlinked?
interlink---
desautomatizar

.

1 minute into it

i.

replicants are bioengineered humans, designed by tyrell corporation for use off-world, their enhanced strength made them ideal slave labor

ser criação, ter para si uma função, poder alcançar um ideal

after a series of violents rebellions, their manufacture became prohibited and tyrell corp went bankrupt

como é frágil o criador, que a um primeiro tropeço, desmorona

the collapse of ecosystems in the mid 2020s led to the rise of industrialist niander wallace, whose mastery of synthetic farming adverted famine

o preço da necessidade de sobreviver, procriar, postergar o fim

wallace acquired the remains of tyrell corp and created a new line of replicants who obey

e quem não obedece, manda, como há sempre; contanto que se continue, no mesmo esquema, a mesma lustrada chave-dentada
da destruição

many older model replicants -- nexus 8s with open-ended lifespans - survived. they are hunted down and 'retired'

fim da vida útil do que não queremos que viva para sempre. nada vive para sempre -- na lógica
da destruição -- apenas o sistema, um ideal

those that hunt them still go by the name...

você consegue ouvi-los chamar?

domingo, 8 de novembro de 2020

um poema nunca

        está

quinta-feira, 29 de outubro de 2020

no princípio havia o Desejo
e o Desejo estava em tudo
nos passos lentos da travessia
na curiosidade de reconhecer
no movimento de partida
e de chegada ao mesmo tempo
e então veio o Tempo e fez à força
o que o Tempo sempre faz
e onde Antes o Desejo
passeava livre -- sendo apenas --
agora o Tempo passa a duras penas
faz escorrer e dilatar qualquer
emoção e nem mesmo as sensações
sobrevivem à ação e os passos
não se preocupam com o movimento
não se parte nem chega apesar
da ilusão de travessia
reconhece-se o tudo
e Tudo é o Tempo
e o Tempo e o Espaço
fundidos no tecido do que Antes
foram linhas do Desejo, aqui


a Espera é infinita

la poesia è fatto di liberazione, non di riflessione
[...] il tempo nella poesia diventa volume del cubo; cioè
profondità tramite le attesa-spazio tra verso e verso.
Amelia Rosselli

sábado, 24 de outubro de 2020

MEMÓRIA

encrustado de areia
o sabonete não lava
da pele o salga-
do...

domingo, 18 de outubro de 2020

domingo desmanche

deito sob o sol
sobre o chão de taco
e me estendo como tapete

vou pensando no que me acome-te
respondendo às perguntas: empilhando-se

e pego no sono
como quando menina
há uns vinte anos
sentindo-me muito mais
o abismo temporal entre eu
e eu mesma então, no Antes

sonho a praia
meu corpo se estendendo
todo sabendo-se parte da areia
e do mar que me invade dentro
as pernas arregaçadas
despreocupada estrela do mar
a pele empanada deixando-se banhar
feito fosse mesmo criatura do mar
feito fosse água-viva em praia de banhista
e sinto-me inteira totalmente
des/pe/d/assada um pedaço
em cada parte da praia
completando-me somente na paisagem
impossível aos meus olhos de sereia cegados
e vou sentindo o vento a queimar meu cabelos
a criar-me rugas precoces na pele de verão
escamosa como nunca Antes
o corpo jogado inteiro no chão
imóvel, imobilizado, esperando a onda me lavar

feito redemoinho
feito rede e, claro, moinho
diversão e desespero
a boca bem grande tentando beber
toda a água para enfim ser-
mos o mesmo mar

acordo ensopada de sangue
enxergando o mundo todo azul
feito ainda fosse menina
um pouco menos cretina
: ainda inteiriça

sexta-feira, 2 de outubro de 2020

olha desde atrás, ao redor, e enfim até a frente
tudo o que seus olhos são capazes de alcançar
a vastidão que o rodeia e o penetra e o ultrapassa

acende a ponta do cigarro filtrado que o invade
vai caminhando aceleradamente até penetrar
bem fundo seus pulmões ali se embrenhando

(antigamente há alguns meses ainda se ouvia
o choro a tosse e a fome da criança que sentia
a morte que pacientemente podia lhe cheirar)

descobre enfim um momento de contemplação
vê o fogo ainda se espalhando longe e reflete
sobre sua existência e sua capacidade de pensar

em si mesmo e em tudo que fez
resultado: agora é fogo e cinza e morte
lembra que esse é seu trabalho

e nesse instante sorri
: isso aqui é minha riqueza
mas que beleza! apaga a bituca e ri

a terra enfim devastada

quinta-feira, 1 de outubro de 2020

será o que será que será

será?
que quando toda planta que houver
couber em nossos apartamenos pequenos
em nossas janelas mal-ensolaradas
ou muito-esturricadamente-ensolaradas
nas sacadas de vidro e concreto
cercadas apenas dos animais
que salvamos: nossos gatos
cachorros e periquitos
um peixe solitário
num aquário de água
sufocante do que restou;
enfim nos sentiremos
aquilo que somos?

será?
que quando toda umidade do ar
evaporar de nossas lágrimas cinzas
de chuva ácida e óleo diesel
e nas plantas envasadas
pousarem apenas as moscas
que sobrevoam nossos já cadáveres
sedentas e sobrevivendo em
círculos pelo piso frio onde não
bate o sol, onde caminham as baratas
pós-apocalípticas; e toda brisa que bater
for de terral carregando nossos
estilhaços putrefatos conservados
em pequenos potes de plástico
enfim nos perceberemos
enquanto aquilo que praticamos?

será?
que outro dia que amanhecer
dourado reluzente de dor e morte
de poluição e queimada e fumaça
que vem de longe e entra pela janela
e a luz que afaga as pétalas as folhas
os pequenos raminhos nos vasos
for filtrada pelo apocalipse ecológico
que causamos e não paramos
porque continuamos: vivendo
será que enfim quando queimarmo-nos
e poluirmo-nos -- tudo o que há em nós --
em tons de laranja e cinza pútridos
então finalmente veremos claro cristalino
como num espelho de água que não possuímos
aquilo exatamente que nos torturamos?

então
nos veremos
enquanto
o que somos?
o que sempre fomos?
o que se está se tornando?
o que será que seremos?
o que será que será se será?

domingo, 13 de setembro de 2020

o rastro

o contorno do meu corpo marcando a grama
por pouco tempo depois de tirar dali o peso
e dar espaço para insetos ali rastejantes:
o movimento enfim livre: é a mesma leveza
de quando me levanto do teu corpo macio
que há tanto desejo
e espero em silêncio
é com a mesma ligeireza da grama quando
me levanto que perde teu corpo suado
o calor que de contínuo emano
do meu e a breve lembrança não dura
mais que alguns suaves suspiros cansados

já é dia e há tantos dias que nossos corpos não
marcam um no outro brevemente nossos
contornos imaginados, e um corpo se confunde
enfim com outro como que atravessando o tempo
— no mesmo espaço-tempo-caixa de memórias —
nos fazendo confrontar o impossível:
dois corpos que ocupam sem medo
o mesmo espaço-suspiro
mas raia o dia pela janela de vidro
e concreto: nossos olhos marejados de cansaço
a caçar o calor da noite: em que braços?
e há dias em que o dia amanhece em silêncio
nem mesmo o canto dos pássaros: - - -

da reminiscência de quão breve é o voo
do meu corpo sob o teu: sobra o meu
silêncio em ninho a fazer-se miúdo
e vê na janela o desenho úmido
de teus dedos tímidos
num adeus
que é quase
surdo

sexta-feira, 4 de setembro de 2020

i.
o espelho estilhaçado no chão
e não importa quantas perguntas
eu faça insistentemente de novo
e de novo incoerentemente ecoo
o espaço vazio e cinzento entre
um breve reflexo e outro molhados
por lágrimas inconscientemente
inconsoláveis que não formam sequer
um mosaico um painel de arte
se me esforço e penso eu minto
e chamo a desgraça de colagem
arte em sobreposição absurda
em suas linguagens em meus
silêncios perenes ecoando o meu
grito: desespero incompreensível
ao ver em meus reflexos tantos
pedaços sem compreender a imagem
final porque a cada instante que tento
compreender o todo o todo se desforma
a cada instante de novo e de novo
e a vibração da imagem refletida não
reúne ou dá a ilusão de completude
entre os estilhaços: sou eu aquilo que
me vejo e aquilo que me olha de volta
e tudo aquilo que não vejo nem me olha
sou eu o tudo incompleto opaco estilhaço
em construção e o desespero de não saber
sou eu

ii.
tento outra vez uma aproximação
uma outra angulação que me sirva
como ponto de vista de todo novo
então tiro os calçados e a meia e
me atiro de pés inteiros no espelho
já despedaçado: nenhum estrago
e com o sangue que escorre
desenhando como que magma
passeando por terra a primeira vez
percebo enfim as fissuras que separam
c a d a  e s t i l h a ç o  num desenho
mágico selvagem como um rio
é impossível dizer que rumo o sangue
escolhe seguir mas escolho assistir
ou como muito me ocorre deixo a escolha
me acontecer enquanto inerte respiro
um suspiro de cada vez e o sangue
já é muito e se alastra e parece dar corpo
e cor à opacidade que impede o todo
e aí sou alcançada por uma iluminação
: não sei como o espelho se estilhaçou
quem sabe foi estilhaçado ou venha assim
de fábrica quem sabe o espelho só é espelho
quando enfim se vê: estilhaçado
sem origem razão ou finalidade é feito
do que não é possível consertar e
enquanto o sangue segue fazendo
desenhos percebo-me impossível dizer
atribuir a origem a alguém é só
insensível querer obrigar a dizer
quem

o relato que posso fazer de mim mesma tem o potencial
de se desintegrar e ser destruído de diversas maneiras

— Judith Butler

para o Geraldo meus pés acostumados ao movimento da areia e das ondas do mar do vento trazendo e levando resquícios pisam de repente os pés ...