terça-feira, 11 de agosto de 2020

(a dor)

 os cientistas ainda não testaram
qual o desbalanço químico
do choro em público
da água salgada em gota que
repentinamente entra em contato
com o ar que tu respiras tão longe
quais perigos esconde
os cientistas não sabem afirmar
e eu nego a minha úmida humilhação
e meus olhos grandes perdidos de
imensidão entre o ar daqui e o ar daí
que tipo de absurdos despertam
meus desvios será que contamino
antes que tenham tempo de desviar
e se protegerem do mal do nosso tempo
que anda tão seco e coberto cinzento
o nosso descompasso entretenimento
despetalar: a exposição em branco e preto
radiografia a fotografia da dor
desconforto não
é mesmo um sintoma

é como ar na água
a física explica
uma bolha precisa
de pressão e diferença
de densidade para
existir e ser uma bolha
do contrário ela
é só ar sem água
e quanto maior a pressão
maior a condensação
o que significa que a
densidade precisa ser
também diferente
e o que isso quer dizer?

que, quanto mais fundo
mais dentro do profundo
na escuridão do mar
no submarino um mundo
desconhecido
onde a luz não chega
mas onde tanta energia
ali comprimida:
a poesia?

a leitura o movimento
de expansão
trazer à superfície
à luz do sol
e dispersar
perder-se no ar
ser uma com a salinidade
e a umidade do mar
uma viagem de milhas e milhas
de léguas submarinas
até a impossibilidade
do retorno

como é difícil isso tão nosso
isso que nos faz nós
quem somos
a gente
tão particular da nossa
humanidade que se
se fala alguma coisa
quero dizer
se tento dizer
enquanto busco ouvir
numa tentativa de trocar
de ideia de te fazer trocar
uma ideia comigo
ou duas se a gente tiver
tantas em tão pouco tempo
não mais que duzentos mil
anos ou algo semelhante
a um número que não sabemos
decifrar e como é difícil fazer o som ecoar
produzido aqui dentro e chegar até você
e o som formado sai e toca
o ar com sua vibração e assim vai
se tremendo todo
até chegar até você e até você processar
o som já é tão difícil por si só mas é só
é só que a gente se fala
isso a fala mas como é difícil isso tão nosso
isso que nos faz nós
quem somos
a gente
tão particular da nossa
humanidade que se
se escreve alguma coisa
quer dizer
se acha que escreve e comunica e põe no mundo
algo completamente impossível segundo as leis da física
pois nada se cria tudo se transforma então
o que que a gente faz?
o quê? a gente comunica?
quê? a gente? que comunica?
comunica o que a gente não comunica?
comunica a gente comum e caminha como uma gaivota
menor ainda que um albatroz mas caminha
caminha contando os passos contando
os passos dados até aqui
contando e contando como é difícil
isso
tão nosso

quinta-feira, 23 de julho de 2020

ainda os dados

... jogo sempre o mesmo dado
que me dá sempre a mesma
sempre a mesma
sempre a mesma
sempre a mesma
até que

quinta-feira, 16 de julho de 2020

é música o que

se texturiza nos lábios
teus, indassim tens calado
como um longo amanhecer
dia após dia de dias
tão quentes, também cinzentos
um gato todo sem pelos
o terror deste silêncio
teu torna o itinerário
destes dedos meus um gesto
de simples e puro medo
és não o som propagado
no vácuo deste meu corpo
és a forma mesma, a cor
denunciando na íris
ao te ver pronunciar:
rebentar ondas       ...
não és a rima que falta
e sim tudo o que deslocas
quando enunciando alta
a nota exata: o pavor
fazes-te ritmo do amor
do meu samba és o choro

sexta-feira, 10 de julho de 2020

exposta

é uma ferida aberta
a mão que agora te dou
ferida de faca agora
lambuzada de sangue
e um tanto de suor
o sangue não corre
a ferida parece parada
tomada por um éter
um modo de ser
: sendo ferida e aberta
estampada no tempo
estanque; mostro-te
carne, músculos, ossos,
as ligações cortadas
a palavra que não sai
e encontra significado
em teus lábios
enunciando o som
adequado para o momento
faço-te ver fixa (isto cometo)
a articulação atrofiada
estendo-te esta mão
mesmo assim mesmo
sendo ferida aberta
quase como uma chaga
e tu lúcido como um cometa
apertas-me entre teus dedos
cândidos

domingo, 5 de julho de 2020

cento e onze dias ecoando

a palavra mais bonita da língua portuguesa é saudade
saudade que ninguém sabe explicar o que é
e faz no máximo uma tradução meia boca
tentando dizer em línguas e palavras outras
o que só se pode sentir em língua brasileira
a palavra mais bonita da língua portuguesa foi
a mais proferida este ano que começou há tanto
tem passado tão rapidamente e ainda está longe do fim
(saudade): porque tenta-se dizer o que se sente somente
escrevo saudade de olhos fechados e olhar distante
penso na última vez em que me senti viva e me vêm à mente
mil lembranças vivas e tenho certeza que nenhuma delas é a última
nem somente minha porque vivas dinâmicas como andar na rua
escavo distraidamente e perpasso lugares atravesso e me embrenho
cidade adentro estou sentada no ponto de ônibus também esperando
enquanto ouço educadamente a história de uma mulher que esqueço
mal piso o primeiro degrau do ônibus que chega atrasado e lotado
como de costume sinto o calor de todos os corpos suspensos
em movimento sou atravessada pela violência da vulnerabilidade
de estar disponível para um encontro não planejado com um conhecido
de testar as leis da física e não ocupar o mesmo lugar que um desconhecido
que tromba comigo me conhecendo o toque ligeiro do corpo disponível
estou viva na rua vivendo estou viva nua no mundo sendo
faz frio e os dedos empedrados denunciam a demora
porque me pego pensando que tenho tanta saudade
escrevo: saudade
e apago: lembrando a impossibilidade de dizer simplesmente

saudade

I just miss you. In a quite simple desperate human way.
- Vita Sackville-West

terça-feira, 30 de junho de 2020

caminhei não sei quantos dias num deserto árido
dentro de debaixo de um sol extremamente pálido
comi e bebi de todo tipo diverso de cacto
furando o céu da boca com espinho
procurava paciente o amor calminho
tropecei-me numa pedra no meio do caminho
agarrei-me a um tanto de vento no ar
e caindo de boca quebrei os dentes
da frente de ar fria que vinha em brisa de mar
senti o sal se misturar ao sangue
isto é, o fogo ao ferro, cuspe em barro
juntei a terra vermelha na mão direita
formei imagem imperfeita
o tropeço me arrebentou os joelhos
e os tendões ainda hoje latejam
feito não tivesse ainda me recuperado
do baque de ter achado ao acaso mangue
na queda me veio um lampejo
feito se de repente um trovejo
e foi aí talvez: então te vejo
a atmosfera que me segura
enquanto também me puxa
quase um balancejo
mas a história é a mesma uma
caí de boca em sangue poça
mangue moça de gracejo espinho
em sangue abrindo o caminho

segunda-feira, 29 de junho de 2020

a cabeça todo um         escoar
de ondas do mar que ou
secaram em vapor ou um
milagre se operou; os
olhos como de
ressaca em dia
      de ano novo:
oferendas para a rainha
a flutuar no
seco entre tanto
mijo cuspe porra sem
camisinha pra contar história
à cabeça uma                         lembrança
morta de vida
                a cabeça coroada
da testa até o nariz
                         a ponte como
por sobre o iguaçu embaixo
         só carcaça barco      náufragos
   o rio   o  mar   um   movimento   só
de quem
                                                                       ressurge

quinta-feira, 11 de junho de 2020

há já não sabemos mais quantos anos escavam
novos solos em pompeia em busca incessante
por novos afrescos e pedaços-lembrança
de uma gente e sua vida esquecidas
escavam escavam escavam remexem
a terra e reviram o solo em busca de algo
novo para relembrar a tragédia-crença
de quem, crê-se, não teve tempo de salvar
a si e seus entes queridos e seu tempo
suspenso eternamente em afrescos
coloridos de vermelho amarelo
às vezes até azul e verde
escavam com cuidado que é para que
os afrescos sejam preservados e possam
ser transferidos para as paredes do museu
onde ficam organizados em salas com suas
plaquinhas de letras miudinhas que tentam
tatear um passado intocável inalcançável
ainda incansavelmente escavam e arrancam
paredes mas não todas que é pra ter gente
passeando por pompeia no presente
pensando no passado enquanto experiência
sensível da imaginação numa dinâmica
impossível; num mesmo movimento-outro
há 87 dias comecei a minha escavação
e com as unhas ou instrumentos menos
sensíveis arranco das minhas paredes
a tinta creme queimado em busca
de um passado anterior a estes 87
dias de casa sala quarto banheiro
cozinha e lavanderia gatos e plantas
e tanta tela tanto trabalho virtual
na busca-ânsia por esse passado que não é
não pode ser meu porque a tinta
é grossa de memórias de quem aqui viveu
e eu sou tão jovem ainda que isolada sozinha
nessa busca que tanto me cansa-desespera
há oitenta e sete dias repetidamente
iguais minhas mãos mecânicas cavam
escavam e arrancam lascas inteiras
pedaços miúdos violentos no salto
sem criar memória expondo por baixo
uma parede de tinta nova-anterior em
branco

sábado, 6 de junho de 2020

leite derramado

preciso de um papel ligeiro
leve como se fosse de um livro
velho e desgastado por levar
a muitas mãos algo que fazer
preciso deste tipo único
de papel que não se encontra
mais para dizer sobre você
como nasceu e onde viveu
quem te bateu e puniu
por tudo que lhe fez
preciso de um papel ligeiro
para escrever e me pergunto
o por quê já que ninguém
lê aliás ninguém
me lê
aliás ninguém mais
sabe de você porque não lê
e se eu soubesse pintar
ou desenhar fazer colagem crochê
precisaria deste mesmo papel ligeiro
para bordar na superfície
atravessar com a agulha do pincel
as palavras que fizeram você
esquecer quem é ou melhor
que fizeram você pensar quem é
e eu pegaria este papel
e o amassaria muitas
vezes depois que você o lesse
porque eu preciso apenas
que você entenda se
é preciso mesmo
alguém vir
te dizer
quem é
você

(como se seu sangue tantas vezes
derramado não cantasse
seu nome lembrando
penetrando a terra
subindo pelas árvores em seiva
queimando no sol sua pele morena
bronzeada com sua marca)

[ como
se sua língua tantas vezes
cortada não tocasse
cada dente seu
atravessando os espaços
certificando-se que ainda
está em casa em sua
boca ]

{
como se seus olhos suas mãos
a ponta dos seus dedos
não reconhecessem
esse papel
lido e relido
porque foi você
quem escreveu
e escreve
a história que vão contar
}

a silhueta da sua barriga se desenha e uma cidade desaparece do mapa litorâneo as suas células são criativas e se reproduzem enquanto a geog...