minha sala parece cada
vez menor
nas estantes encontro
meus muitos livros mas as
páginas
todas
em
branco
para minha surpresa e decepção
pego uma de minhas muitas
e coloridas canetas e decido
eu mesma
escrever um romance
uma ideia mal me brilha as veias
da porta me
gritam amélia
nos cadernos, não!
já falei!
a dona da papelaria?
sempre venho aqui e é
essa gritaria
sempre repreendendo
o barraco faz a freguesia
eu acho?
grito como num aviso
faltam livros nessa tua biblioteca
os jovens são uns...
vou te contar
essa minha sala está
cada
vez
quinta-feira, 26 de setembro de 2019
deus
um homem caminha pelas nuvens
seus calcanhares rachados suas unhas
encravadas crava seus dedos na superfície lábil
mantém-se firme ereto
anuviados os olhos contemplam a
vastidão
considera a necessidade real
de sua existência
um passo em falso percebe
descobre
: o céu imenso
seus calcanhares rachados suas unhas
encravadas crava seus dedos na superfície lábil
mantém-se firme ereto
anuviados os olhos contemplam a
vastidão
considera a necessidade real
de sua existência
um passo em falso percebe
descobre
: o céu imenso
lendo benjamin
vai ver é por isso que não se fazem facas de vidro
que é tão liso e duro e sóbrio e frio e nada fixa
e não tem nenhuma aura
e uma faca é
ao contrário
rígida e pungente e ensanguentante
ela é forjada no calor fundente do fogo
enquanto músculos potentes se aquecem sobre ela
e uma faca não pode
se estilhaçar e morrer no primeiro ataque
uma faca tem que
durar
para cortar e sangrar e atacar
porque uma faca é uma ameaça
é uma peixeira pensa no buxo
é um corte certeiro
>e falta algo aqui<
e um vidro é
o inimigo do mistério
uma faca é um objeto em construção
como um poema
e sempre deixa um rastro
de sangue de suor de vida
que é tão liso e duro e sóbrio e frio e nada fixa
e não tem nenhuma aura
e uma faca é
ao contrário
rígida e pungente e ensanguentante
ela é forjada no calor fundente do fogo
enquanto músculos potentes se aquecem sobre ela
e uma faca não pode
se estilhaçar e morrer no primeiro ataque
uma faca tem que
durar
para cortar e sangrar e atacar
porque uma faca é uma ameaça
é uma peixeira pensa no buxo
é um corte certeiro
>e falta algo aqui<
e um vidro é
o inimigo do mistério
uma faca é um objeto em construção
como um poema
e sempre deixa um rastro
de sangue de suor de vida
quinta-feira, 19 de setembro de 2019
sábado, 31 de agosto de 2019
apocalipse
o fim dos tempos será anunciado
por um cavaleiro alado cinza e terrível
sem voz
portará uma placa em neon para que todos os cegos possam ver
com os dizeres
é findo todo o simbolismo
será anunciado em outdoors e ativará
notificações push-up
brilhará nas telas de todos os olhos
ninguém poderá dizer-se
desavisado
um grito rouco guardado
ecoará silencioso
pelas fibras ópticas pelas janelas espelhadas
pelos corredores gelados de prédios surdos
em construção
pela estrutura metálica enferrujada cimentada em
prédios velhos
que se põem acima da multidão muda
que gritará rouca
onde está
onde está
aquele que nos iria salvar
atrasou-se para o compromisso
como previsto
por um cavaleiro alado cinza e terrível
sem voz
portará uma placa em neon para que todos os cegos possam ver
com os dizeres
é findo todo o simbolismo
será anunciado em outdoors e ativará
notificações push-up
brilhará nas telas de todos os olhos
ninguém poderá dizer-se
desavisado
um grito rouco guardado
ecoará silencioso
pelas fibras ópticas pelas janelas espelhadas
pelos corredores gelados de prédios surdos
em construção
pela estrutura metálica enferrujada cimentada em
prédios velhos
que se põem acima da multidão muda
que gritará rouca
onde está
onde está
aquele que nos iria salvar
atrasou-se para o compromisso
como previsto
segunda-feira, 29 de julho de 2019
quinta-feira, 25 de julho de 2019
você sabe como
uma palavra
se torna uma
palavra
quando sai da boca ou
da ponta de um lápis e
existe no mundo
você sabe como
essa mesma
palavra
pode se moldar e
remodular ressignificar registrar
transformar-se transgredir-se trasladar
atravessar
histórias e continentes
mulheres e crianças
que são forjadas à sombra
de si mesmas
mas às vezes lança-se uma luz
e se recria: a sombra projetada
por algum canalha
desavisado ou não
;mas a
palavra
pode lhes restituir
a luz originária;
e você sabe como uma
palavra
significa
e você sabe como é
exatamente assim
essa ação
que eu sou
um poema uma prosa
:
a ruptura
uma palavra
se torna uma
palavra
quando sai da boca ou
da ponta de um lápis e
existe no mundo
você sabe como
essa mesma
palavra
pode se moldar e
remodular ressignificar registrar
transformar-se transgredir-se trasladar
atravessar
histórias e continentes
mulheres e crianças
que são forjadas à sombra
de si mesmas
mas às vezes lança-se uma luz
e se recria: a sombra projetada
por algum canalha
desavisado ou não
;mas a
palavra
pode lhes restituir
a luz originária;
e você sabe como uma
palavra
significa
e você sabe como é
exatamente assim
essa ação
que eu sou
um poema uma prosa
:
a ruptura
sábado, 1 de junho de 2019
história de fim de amor
I
resta intocada no meio da tua sala uma pétala seca
II
onde antes emolduravas tuas flores amareladas
em vasos de barro produzidos em massa
sobre uma mesa de centro rodeada das
tuas coisas preferidas -- tuas lembranças,
teus brinquedos e livros, tuas
fotos empoeiradas -- flutua
feito num tempo infinito
a poeira da tua pira poética:
lareira das tuas paixões
tornadas vulcões
enfim inativos
III
o chão de taco carcomido
pelos meus dentes
IV
.
resta intocada no meio da tua sala uma pétala seca
II
onde antes emolduravas tuas flores amareladas
em vasos de barro produzidos em massa
sobre uma mesa de centro rodeada das
tuas coisas preferidas -- tuas lembranças,
teus brinquedos e livros, tuas
fotos empoeiradas -- flutua
feito num tempo infinito
a poeira da tua pira poética:
lareira das tuas paixões
tornadas vulcões
enfim inativos
III
o chão de taco carcomido
pelos meus dentes
IV
.
quarta-feira, 15 de maio de 2019
no horizonte cinzento que pousa
sobre o mar uma nuvem espessa
se adensa e se adentra
na ilha e no continente
se espalha em tudo que é direção
meu corpo em cima da ponte não
sabe qual lado seguir: se me afunda
e me molha se entra em combustão
uma menina me olha ainda mais
perdida e confusa, com sua mão
estendida para ninguém, suspensa
estou certa de que não sou sua mãe
e de nada mais estou certa. me olha
(me acerta) e me diz que se molha
com a brisa salgada de fogo
minha mão já em chamas
sobre o mar uma nuvem espessa
se adensa e se adentra
na ilha e no continente
se espalha em tudo que é direção
meu corpo em cima da ponte não
sabe qual lado seguir: se me afunda
e me molha se entra em combustão
uma menina me olha ainda mais
perdida e confusa, com sua mão
estendida para ninguém, suspensa
estou certa de que não sou sua mãe
e de nada mais estou certa. me olha
(me acerta) e me diz que se molha
com a brisa salgada de fogo
minha mão já em chamas
sábado, 11 de maio de 2019
lagarto
como eu
decido, enfim, que é hora de trocar as plantas de vaso?
arrumo toda a minha sala para que tenham espaço
para que bem no meio caiba toda sua terra feito
fosse um terraço, e toda terra nova feito fosse
o recuperar-se dum vulcão ou duma era de
gelo. espalho-as pelo chão de taco, resquício
de uma madeira outra, de uma vida outra
que se embrenha na minha e nas delas
todas; espalho-as pelo chão de taco
para tocar suas raízes, vê-las expostas e
respirando. com olhar clínico, espalho-as
para enxergar novos pontos de cesura
onde passará a tesoura feito um bisturi
os dedos sem luva sentindo sua pele nua.
a terra feito sangue jorrado no chão não é
hemorragia, não, mas placenta que se sente
renovar em minhas mãos. escolho o melhor
vaso para colocar cada uma delas. analiso
o perfil desta e daquela, vejo se seriam boas
vizinhas, se emprestariam uma xícara de açúcar
ou duas colheres de manteiga, se compartilhariam
o bolo de aniversário, um pouco da farta janta
de natal e o barulho da vida que continua. há aquelas
que são elas mesmas uma comunidade inteira
reservo um espaço dentro de um vaso único
onde replantarei seus bulbos e raízes até então
intactos. lavo os vasos. retiro o excesso das
raízes. preparo a terra. arrumo o terreno.
encaixo-as, posiciono-as, feito fosse um projeto
arquitetônico: cada planta uma parte de vida que
se projeta para o futuro e que projeta no passado
esse momento que vivo e depois reescrevo. cada folha
evoca a lembrança do desabrochar de outras flores, o
despertar da semente na terra úmida num dia quente,
o amadurecer de frutos que ainda não foram gerados.
nesse momento, me percebo, inteira: raiz, caule, tronco e
folhas, muitas folhas. espalhadas pelo chão, não as varro.
deixo-as transformarem esse taco na planta que já fora
e que voltará a ser. nesse momento, vejo meus frutos
e suas sementes, alimentando minhas raízes, fazendo cair
minhas folhas. às minhas raízes não permito o sufoco.
toda nova escavação é um solo e lençol que irrompo.
e você, o que achará dos meus frutos que já tantas vezes
comeu?
decido, enfim, que é hora de trocar as plantas de vaso?
arrumo toda a minha sala para que tenham espaço
para que bem no meio caiba toda sua terra feito
fosse um terraço, e toda terra nova feito fosse
o recuperar-se dum vulcão ou duma era de
gelo. espalho-as pelo chão de taco, resquício
de uma madeira outra, de uma vida outra
que se embrenha na minha e nas delas
todas; espalho-as pelo chão de taco
para tocar suas raízes, vê-las expostas e
respirando. com olhar clínico, espalho-as
para enxergar novos pontos de cesura
onde passará a tesoura feito um bisturi
os dedos sem luva sentindo sua pele nua.
a terra feito sangue jorrado no chão não é
hemorragia, não, mas placenta que se sente
renovar em minhas mãos. escolho o melhor
vaso para colocar cada uma delas. analiso
o perfil desta e daquela, vejo se seriam boas
vizinhas, se emprestariam uma xícara de açúcar
ou duas colheres de manteiga, se compartilhariam
o bolo de aniversário, um pouco da farta janta
de natal e o barulho da vida que continua. há aquelas
que são elas mesmas uma comunidade inteira
reservo um espaço dentro de um vaso único
onde replantarei seus bulbos e raízes até então
intactos. lavo os vasos. retiro o excesso das
raízes. preparo a terra. arrumo o terreno.
encaixo-as, posiciono-as, feito fosse um projeto
arquitetônico: cada planta uma parte de vida que
se projeta para o futuro e que projeta no passado
esse momento que vivo e depois reescrevo. cada folha
evoca a lembrança do desabrochar de outras flores, o
despertar da semente na terra úmida num dia quente,
o amadurecer de frutos que ainda não foram gerados.
nesse momento, me percebo, inteira: raiz, caule, tronco e
folhas, muitas folhas. espalhadas pelo chão, não as varro.
deixo-as transformarem esse taco na planta que já fora
e que voltará a ser. nesse momento, vejo meus frutos
e suas sementes, alimentando minhas raízes, fazendo cair
minhas folhas. às minhas raízes não permito o sufoco.
toda nova escavação é um solo e lençol que irrompo.
e você, o que achará dos meus frutos que já tantas vezes
comeu?
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para o Geraldo meus pés acostumados ao movimento da areia e das ondas do mar do vento trazendo e levando resquícios pisam de repente os pés ...
-
ora thiago falando de frankenstein entro nos teus lábios observo cautelosa a flor que se abre entre meus dedos toco a carne da tua boca des...